México acusa EUA de ingerência em assuntos internos ao afirmar que campanhas de desinformação partem de setores da Casa Branca com o objetivo de influenciar o cenário político e as eleições mexicanas de 2027.
México acusa EUA de ingerência em assuntos internos
A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, declarou, em discurso pelos dois anos de mandato, que segmentos do governo dos Estados Unidos estariam promovendo “campanhas midiáticas e de desinformação” para afetar decisões internas mexicanas. Segundo ela, a ofensiva busca moldar a disputa que renovará a Câmara e 32 governos estaduais em 2027.
Sheinbaum ressaltou que o combate ao crime organizado deve permanecer como responsabilidade compartilhada, mas não pode servir de justificativa para enfraquecer princípios como não intervenção e autodeterminação dos povos. A fala ocorreu no domingo (31), durante cerimônia oficial na Cidade do México.
Extradições sem provas e caso CIA ampliam tensão
No mesmo discurso, a presidenta criticou pedido do Departamento de Justiça norte-americano para extraditar dez cidadãos mexicanos, entre eles um governador, um prefeito e um senador, sob suspeita de narcotráfico. “Cooperação não significa subordinação”, reforçou Sheinbaum, ao afirmar que Washington não apresentou provas formais.
Ela ainda recordou o acidente de carro em Chihuahua que matou dois agentes da CIA sem autorização de atuação no país. “Nenhum agente estrangeiro pode desempenhar funções exclusivas das autoridades mexicanas”, pontuou.
Trump fora do alvo direto
Em entrevista coletiva na segunda-feira (1º), Sheinbaum disse não atribuir as iniciativas ao presidente Donald Trump, mas a determinados setores governamentais norte-americanos aliados a grupos conservadores mexicanos. “Conversamos sempre. Ele diz o que pensa, eu digo o que penso, e chegamos a um acordo”, afirmou.
A mandatária questionou se essas ações estariam ligadas a interesses da extrema-direita dos EUA nas eleições legislativas de 2026 ou seriam tentativa antecipada de influenciar o pleito mexicano de 2027.
Queda nos homicídios e defesa da soberania
Sheinbaum aproveitou o balanço de gestão para destacar redução de 49% nos homicídios dolosos em 20 meses, resultado, segundo ela, de políticas de segurança e combate ao narcotráfico. Ainda assim, reforçou que não aceitará “ingerência disfarçada de ajuda”.
Especialistas em relações bilaterais ouvidos pela BBC apontam que tensões sobre cartéis e soberania ganharam força desde que autoridades norte-americanas sinalizaram operações unilaterais na região.
Para analistas, o tom adotado por Sheinbaum ecoa a tradição diplomática mexicana de defesa estrita da não intervenção, consagrada na Doutrina Estrada de 1930, e revela clima eleitoral cada vez mais acirrado.
Em síntese, o governo mexicano reconhece a necessidade de cooperação, mas condiciona qualquer avanço à garantia de que “colaboração não se converta em submissão”, nas palavras da presidenta.
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Crédito da imagem: Henry Romero/Reuters
Fonte: Agência Brasil
