Vitória apertada de Lula sobre Flávio Bolsonaro (3,5 pontos) acentua a polarização no país. O pleito expôs o protagonismo do Judiciário e reacendeu debate sobre limites e influência nas eleições.
As eleições de 2026 chegaram ao fim com a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro por uma margem apertada de apenas 3,5 pontos percentuais. O resultado confirma a divisão do país e revela uma disputa em que a rejeição ao adversário parece ter desempenhado papel tão relevante quanto a confiança no candidato escolhido.
Para além do desfecho nas urnas, o pleito deixou marcas institucionais que exigem reflexão, sobretudo sobre a influência do Poder Judiciário no processo eleitoral. A presença do Judiciário na cena política foi apontada como um dos elementos mais marcantes desta eleição, em diferentes frentes e com efeitos variados sobre a percepção pública da disputa.
Denúncias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal no escândalo do Banco Master contribuíram para ampliar os questionamentos sobre a imparcialidade e a credibilidade da Corte. Embora denúncias devam ser apuradas com rigor e não se confundam com condenações, a existência de suspeitas dessa gravidade envolvendo integrantes da mais alta instância judicial impõe um custo à confiança pública nas instituições.
Em uma democracia, a autoridade do Judiciário depende não só das prerrogativas constitucionais, mas igualmente da percepção de independência, transparência e equidistância em relação às forças políticas. Quando essa percepção é abalada, cresce a sensação de que decisões judiciais podem interferir de maneira decisiva no rumo da disputa.
Houve episódios polêmicos envolvendo ambos os lados, como decisões controvertidas relativas à aplicação de restrições às regras de debates eleitorais televisivos e medidas que criaram embaraços a grupos em redes sociais de militantes políticos. Ainda segundo informações sobre o período eleitoral, estas foram as eleições presidenciais com maior número de ações judiciais na história (devemos alcançar três vezes mais ações que as eleições anteriores), um dado que reforça a dimensão judicial do pleito.
O capítulo final da votação traz um exemplo emblemático: a decisão monocrática do ministro Zanin, que prorrogou o período de votação até as 19h. Esse tipo de medida reacende o debate sobre os limites da atuação judicial em matéria eleitoral e sobre a necessidade de regras claras e previsíveis para disciplinar a votação.
Regras eleitorais devem ser aplicadas de maneira uniforme, sem margem para dúvidas quanto à sua legitimidade ou aos efeitos que possam produzir no resultado. Não basta que uma decisão seja formalmente fundamentada: em questões sensíveis como esta, é indispensável que sua necessidade, alcance e compatibilidade com a segurança jurídica sejam inequívocos.
A vitória encerrou a disputa nas urnas, mas não encerrou o debate sobre a qualidade da democracia brasileira. Em eleições decididas por margens estreitas, a confiança nas instituições e a percepção de lisura do processo são tão relevantes quanto a contagem dos votos. A legitimidade de um pleito exige que os cidadãos reconheçam regras estáveis, decisões imparciais e instituições acima das disputas partidárias.
