Decisões externas já impactam o bolso do sergipano — de fertilizantes a obras. É preciso uma diplomacia pragmática, que priorize empregos, atração de capitais e defesa da produção nacional.
A ideia de que as relações internacionais pertencem só à burocracia de Brasília está superada. No século 21, a linha entre decisões domésticas e disputas globais desapareceu: emprego, atração de capital e proteção da produção nacional acabam sendo condicionados pelo posicionamento geopolítico do país. Do preço dos fertilizantes aos investimentos em infraestrutura, o dia a dia do cidadão está ligado à política externa. Em um mundo marcado pela rivalidade entre potências, o amadorismo ideológico e a instabilidade reputacional têm custo alto. Para reestruturar a inserção internacional do Brasil, propõe-se substituir o voluntarismo por um pragmatismo liberal, firme e voltado ao interesse nacional.
Essa inflexão exige recompor laços de confiança com democracias liberais do Ocidente — Estados Unidos, União Europeia e parceiros do Indo-Pacífico — e garantir a segurança jurídica necessária à atração de investimentos e à cooperação estratégica. Em relação a regimes autoritários, recomenda-se uma postura madura: preservar canais com grandes mercados compradores sem conceder chancela política a modelos autocráticos. No âmbito regional, cabe ao Brasil liderar a modernização do Mercosul e flexibilizar o bloco para permitir que seus integrantes firmem acordos bilaterais em ritmos distintos.
A conversão da diplomacia em crescimento concreto passa pela conclusão do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), selo de maturidade regulatória e compromisso com o livre mercado. Além disso, o país precisa se posicionar como fornecedor indispensável para as transições energética e tecnológica. Com reservas de minerais críticos — como lítio, níquel e terras raras — e uma matriz elétrica limpa, o Brasil deve usar esses ativos como instrumentos de negociação estratégica. O acesso a esses recursos precisa ser condicionado à instalação de plantas industriais e à transferência de tecnologia, para que o país supere a condição de mero exportador de matérias-primas.
Preços vistos na Amazon em 24/08 e sujeitos a alteração. Como Associado da Amazon, recebo por compras qualificadas.
Da mesma forma, a dimensão do agronegócio brasileiro deve ser convertida em poder geopolítico para assegurar o fornecimento de insumos. No cenário global, o Brasil deve ter voz ativa, defender a soberania nacional e rejeitar restrições indevidas à agricultura e à indústria do país. Para sustentar esse protagonismo, é essencial firmar parcerias tecnológicas com nações democráticas, como Japão e Taiwan, com prioridade para cooperação em inteligência artificial e semicondutores. A integração às cadeias globais de inovação fortalece a soberania digital, estimula a indústria de alta complexidade e ajuda a viabilizar corredores bioceânicos.
Com essas medidas, o país pode se consolidar como principal centro tecnológico e logístico da América do Sul. A reconstrução da diplomacia brasileira não é teoria abstrata, mas compromisso direto com desenvolvimento e bem-estar da população. Ao abandonar equívocos do passado e adotar visão orientada pelo livre mercado, pela segurança jurídica, pelo respeito às democracias e pelo crescimento produtivo, o Brasil deixa de ser espectador e passa a arquitetar seu próprio destino. Uma diplomacia moderna, firme e pragmática transforma a atuação internacional em motor de prosperidade, soberania e orgulho nacional.
Sobre o autor: Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em ação política pela Universidad Rey Juan Carlos, foi diretor da ApexBrasil e do Senado.

