EUA ameaça agir sozinho contra cartéis na América Latina No encerramento de uma conferência de segurança realizada em Doral, Flórida, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que Washington poderá conduzir operações unilaterais contra organizações criminosas no continente caso os parceiros regionais não se envolvam.
EUA ameaça agir sozinho contra cartéis na América Latina
Realizada na base do Comando Sul dos EUA, a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis reuniu delegações de 16 países latino-americanos. Entre os participantes estavam Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e representantes de nações da América Central e Caribe. O encontro culminou em uma declaração conjunta – ainda não divulgada – e em acordos bilaterais que, segundo Buenos Aires, adaptam marcos jurídicos internos para ações coordenadas.
Hegseth classificou o tráfico de drogas como “ameaça hemisférica” e destacou que os Estados Unidos “estão preparados para partir para o ataque sozinhos, se necessário”. O secretário também vinculou a iniciativa ao chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe, previsto na Estratégia de Segurança Nacional norte-americana anunciada em dezembro de 2025.
Para o professor de geopolítica Ronaldo Carmona, da Escola Superior de Guerra, a declaração representa “ameaça gravíssima” à autonomia regional. Ele recordou que, “sob Donald Trump, pronunciamentos semelhantes se converteram em ações concretas”, citando a Venezuela como exemplo.
Doutrina Monroe volta ao centro do debate
Ao retomar o princípio formulado em 1823, Washington sinaliza a intenção de limitar a influência de potências extrarregionais nas Américas. “Queremos impedir que atores externos ameacem nossa paz e independência”, disse Hegseth durante a conferência. Para especialistas, no entanto, o discurso reforça uma lógica de preeminência norte-americana e pode tensionar relações diplomáticas.
Análise publicada pelo Council on Foreign Relations relembra que a Doutrina Monroe historicamente serviu de base para intervenções militares dos EUA em vários países da região ao longo do século XX.
Reações de líderes latino-americanos
Governos de México, Brasil e Colômbia defenderam a necessidade de respeito à soberania. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, enfatizou que a cooperação deve ocorrer “sem subordinação, como iguais”. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu o tema na agenda bilateral Brasil-EUA, mas manteve a distinção entre segurança pública e defesa territorial.
O colombiano Gustavo Petro afirmou que “quem mais deseja destruir os cartéis é a América Latina”, mas rechaçou ações unilaterais: “Precisamos de um pacto pela vida e pela paz”.
Novos acordos militares e preocupação regional
Países como Equador e Paraguai vêm estreitando laços militares com Washington. Um dia antes da conferência, o Senado paraguaio aprovou acordo que concede imunidade penal a militares norte-americanos em operações no país; a proposta aguarda votação na Câmara. No Equador, o governo de Daniel Noboa anunciou operações conjuntas contra o narcotráfico, apesar de a população ter rejeitado a instalação de bases estrangeiras em referendo realizado em novembro de 2025.
Para Carmona, os EUA “tentam militarizar o combate às drogas” e enquadrar Estados latino-americanos em sua estratégia global. Ele defende que nações como o Brasil reforcem estruturas policiais para evitar pretextos de intervenção externa.
O debate sobre a melhor forma de enfrentar o narcotráfico segue aberto, mas a possibilidade de ação solo de Washington recoloca a soberania regional no centro da pauta diplomática.
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Crédito da imagem: U.S. Southern Command
Fonte: Agência Brasil
