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Política

Donos evitam se ausentar por medo de prejudicar a empresa

Rafael Ramos
De R2Sites
Publicado: 16/10/2026
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Donos evitam se ausentar por medo de prejudicar a empresa
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Sebrae-SP revela que 27% dos donos de micro e pequenas empresas têm medo de se ausentar; 33% dizem que a produtividade cai na sua falta. Muitos afirmam que só eles tomam decisões urgentes.

Imagine o terceiro dia de férias: o celular vibra de novo, uma cliente quer saber do prazo, um fornecedor espera aval e alguém da equipe pergunta o que fazer. Você responde, porque só você sabe. Agora troque as férias por uma semana de internação. Sua empresa continuaria de pé?

Para parte dos proprietários de pequenos negócios, a resposta não é simples. Segundo o levantamento “O empreendedor e as férias”, do Sebrae-SP, 27% dos donos de micro e pequenas empresas dizem ficar receosos por não estar no dia a dia da empresa, enquanto 33% afirmam que a produtividade cai quando estão fora.

O estudo ouviu, por e-mail, 1,2 mil donos de micro e pequenas empresas com CNPJ entre 22 de abril e 15 de maio de 2024. Para a maioria, a pausa existe: 70% tiram férias uma vez por ano. Ainda assim, 13% dos entrevistados não costumam sair, e entre esse grupo 34% afirmam estar há mais de três anos sem descanso.

A ausência funciona como um teste involuntário sobre como as tarefas e informações estão distribuídas dentro do negócio. Quando muitas atividades dependem de uma única pessoa, a saída do dono expõe pontos de fragilidade: quem negocia com determinado fornecedor, quem tem acesso a contas ou quem autoriza pagamentos podem ser funções que travam a operação na ausência do proprietário.

A coordenadora de pesquisas do Sebrae-SP, Carolina Fabris Ferreira, afirma que períodos prolongados sem descanso podem indicar a necessidade de ajustes na gestão ou na estrutura do negócio. Antes de perguntar se a empresa está pronta para crescer, vale perguntar se ela continua funcionando quando o dono deixa de estar disponível.

Especialistas em continuidade de negócios tratam o risco como dependência de pessoas-chave: isso ocorre quando um processo, conhecimento, acesso, relacionamento ou atividade crítica não consegue seguir sem determinado profissional. A recomendação é registrar procedimentos, responsáveis, frequência e etapas das atividades para reduzir essa dependência.

A norma ISO 22301, que trata de Gestão de Continuidade de Negócios, estabelece uma estrutura para planejar, implementar, monitorar e melhorar mecanismos capazes de manter operações e recuperar atividades após interrupções. Um ponto central da norma é que planos não devem ficar apenas no papel: exercícios e testes verificam se os procedimentos funcionam na prática e se as pessoas sabem seus papéis.

Para um pequeno negócio, o exercício pode ser simples: escolher uma atividade crítica e imaginar que o dono ficará indisponível por alguns dias. Quem atenderá os clientes? Quem terá acesso aos sistemas e poderá autorizar pagamentos? O que parará durante o exercício é pista de onde está a dependência.

O exemplo da Apple ilustra a diferença entre presença e dependência. Em 14 de janeiro de 2009, Steve Jobs anunciou licença médica até o fim de junho; Tim Cook assumiu as operações do dia a dia. Em 2011, outra licença médica de Jobs levou a recuos nas ações e, em agosto, Jobs renunciou ao cargo de CEO, recomendando a implementação do plano de sucessão com a nomeação de Cook. O caso mostra que uma empresa pode concentrar poder em um fundador sem necessariamente depender dele para cada tarefa operacional.

No fim, a pergunta das férias pode ser um bom termômetro: se você ficasse sete dias completamente inacessível, o que deixaria de acontecer na sua empresa? A resposta ajuda a distinguir o papel estratégico do dono da dependência operacional que pode travar o negócio.

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