Documentos do STF mostram que, em junho, a perícia de São Paulo recusou 15 aparelhos apreendidos em endereços ligados à produtora de Karina Ferreira da Gama. Os itens — notebooks, celulares e pen drives — estavam lacrados.
A perícia do Instituto de Criminalística de São Paulo recusou, em junho deste ano, o recebimento de ao menos 15 aparelhos apreendidos pela Polícia Civil em endereços ligados a Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A recusa consta em documentos cujo sigilo foi levantado neste domingo (13) pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O material recebido pela perícia incluía notebooks, celulares e pen drives. Cada item chegou embalado separadamente e com lacres numéricos aparentemente preservados. Ainda assim, os peritos registraram a existência de um vão nos invólucros que, segundo a avaliação técnica, permitiria acesso aos aparelhos sem romper o selo.
“Muito embora o lacre numérico de segurança encontre-se fechado e com sua numeração preservada, constatou-se que o invólucro foi tracionado de forma inadequada na origem. Essa falha gerou um vão livre/abertura considerável permitindo o acesso à peça mesmo sem o rompimento do lacre”
Trecho do termo de recusa.
Na avaliação dos peritos, o espaço era suficiente para a passagem de um cabo USB, o que possibilitaria ligar o aparelho e extrair ou alterar dados sem romper o lacre. Em 13 dos dispositivos, o termo de recusa afirmou expressamente que havia “vão suficiente para entrada de cabo de alimentação e transferência de dados, sendo possível a manipulação dos dados no interior dos aparelhos”.
“vão suficiente para entrada de cabo de alimentação e transferência de dados, sendo possível a manipulação dos dados no interior dos aparelhos”
Após a recusa, os documentos indicam que os aparelhos foram devolvidos à delegacia para readequação dos lacres, segundo registro da Polícia Civil de São Paulo.
O levantamento do sigilo dos autos da Petição 16.669 e de todos os documentos e provas oriundos da Justiça Estadual de São Paulo foi determinado pelo ministro Flávio Dino. A investigação apura um suposto esquema de desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro envolvendo o deputado federal Mário Frias (PL-SP).
Um dos pontos que justificaram a unificação das apurações sob a supervisão do STF e da Polícia Federal é a interligação entre contratos municipais da Prefeitura de São Paulo e verbas federais destinadas ao projeto do filme Dark Horse. Relatórios policiais aceitos no Supremo indicam que a investigação da Polícia Federal em Brasília mapeou repasses de recursos públicos federais entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões para o longa.
O projeto do filme está vinculado à produtora Go Up Entertainment Ltda., de propriedade de Karina Ferreira da Gama, que também constava como dirigente e representante legal do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que mantinha termo de colaboração com a Prefeitura de São Paulo.
Segundo os registros financeiros citados nos autos, Mário Frias teria feito remessas diretas de valores para a Go Up Entertainment em montantes apontados como materialmente incompatíveis com seus rendimentos declarados e com os créditos de suas contas bancárias. Essa movimentação vinculou o parlamentar à engrenagem financeira sob apuração, conectando as verbas do filme a emendas e contratos municipais, conforme os relatórios que constam nos autos.
