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Política

Do mapa impresso ao GPS: como a navegação urbana mudou em 20 anos

Rafael Ramos
De Rafael Ramos
Publicado: 10/06/2026
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Um guia de ruas de São Paulo de 2003 encontrado numa biblioteca revela como era navegar a cidade antes do GPS. O volumoso livro, quase obsoleto hoje, mostra a revolução silenciosa da tecnologia no cotidiano.

Durante uma faxina na biblioteca, encontrei um Guia Quatro Rodas de Ruas de São Paulo, edição 2003. Ao abrir aquele volumoso guia, percebi que ele representava uma era em que a navegação se dava de forma totalmente diferente. Com mapas impressos em letras pequenas, aquele livro era quase um GPS em formato físico, capaz de causar danos a joelhos e portas-luvas devido ao seu peso.

Hoje, o georreferenciamento em tempo real tornou esses guias quase obsoletos, mas a desorientação ainda persiste. Muitos leitores podem se perguntar: como encontrar ruas folheando um caderno? Era assim que se fazia antes da era digital. Para dirigir, era necessário ter a chave do carro, não existia botão de ignição ou carteira digital, apenas um conjunto de mapas que era atualizado anualmente e um bom par de óculos. O que faltava, no meu caso, era a visão adequada.

A miopia borrava o mundo ao meu redor, o astigmatismo distorcia a realidade e a distração constante preenchia as lacunas deixadas pela minha dificuldade de enxergar. Juntas, essas condições formavam uma força-tarefa que transformava qualquer rua em uma possibilidade ou desvio. Enquanto dirigia, consultava o guia no colo, procurando o índice e a página correta, como se estivesse jogando uma partida de batalha naval.

O norte geralmente fica para cima em qualquer mapa, mas em São Paulo, as coisas são diferentes. As ruas seguem desvios criados desde a época dos tropeiros, e os caminhos de mulas permanecem relevantes, hoje transformados em urbanismo moderno. Algumas ruas mudam de nome subitamente, sem explicação, e continuam a existir no cadastro municipal como se nada tivesse acontecido.

Com a chegada de aplicativos de navegação como o Waze, pensei que teria uma solução mais eficiente, até que o carro começou a falar comigo. Para quem me conhece, sabe o quanto o silêncio é importante. No entanto, aquelas instruções eram inconfundíveis. Optei pela narração em grego, minha língua materna, mas isso apenas aumentou a frustração, pois entendia perfeitamente as direções e mesmo assim continuava perdida.

O aplicativo parece ter uma autoestima elevada, ordenando os comandos com confiança, mesmo quando a direita parecia esquerda. Se antes eu errava o caminho com um guia de papel, agora fazia o mesmo com o auxílio de tecnologia de satélite. E agora, com a presbiopia, posso errar a rota de longe, de perto e até à meia distância. Sinto-me uma usuária VIP, com cobertura completa.

O guia de papel era discreto, permanecendo em silêncio, enquanto o Waze interage constantemente. Quando eu não seguia as instruções, a voz do aplicativo anunciava: ‘Recalculando’. O silêncio que se seguia parecia um julgamento sobre as minhas escolhas. Porém, minha relação com direções sempre foi pautada por esperança e fé, não apenas por dados e tecnologia. E, para minha surpresa, a voz finalmente anunciou: ‘Você chegou ao seu destino’. Uma frase que nem minha psicanalista se atreveria a pronunciar.

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