Polícia Civil de SP deflagrou operação contra instituto ligado a produtora de filme pró-Bolsonaro. Verba pública seria usada para WiFi em áreas carentes, mas teria sido desviada.
A Operação WiFi Livre SP, deflagrada pela Polícia Civil de São Paulo na última segunda-feira, dia 1º de junho, tem como alvo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), uma ONG vinculada a Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”. A investigação se concentra em um suposto desvio de verbas de um contrato de R$ 108 milhões celebrado entre a organização e a Prefeitura de São Paulo.
A operação investiga a destinação de recursos públicos que deveriam ser usados para a instalação de internet sem fio em áreas carentes, mas que, segundo as autoridades, podem ter sido desviados para financiar a produção do filme que retrata a eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018. O Termo de Colaboração firmado entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) e o Instituto Conhecer Brasil previa a instalação e manutenção de 5.000 pontos de acesso à internet em comunidades da capital paulista.
De acordo com as informações obtidas, as buscas ocorreram na Secretaria de Inovações e Tecnologia e na sede do Instituto, todas autorizadas pela Vara Regional das Garantias da Capital. A operação visa coletar provas de crimes como fraude em licitação, irregularidades na execução de contrato administrativo e uso indevido de verbas públicas. O inquérito teve início após um pedido do Ministério Público do Estado de São Paulo.
A investigação revela que a ONG não possuía um histórico ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, tendo atuado antes apenas em eventos literários e religiosos.
Além disso, o valor pactuado por ponto de internet, que é de R$ 1.800, é significativamente superior ao valor cobrado pela Prodam, a empresa de tecnologia da Prefeitura, que era de R$ 306 pelo mesmo serviço.
As investigações também levantam a suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo Karina e a Go Up Entertainment, já que a responsável pela ONG recebeu R$ 1 milhão de uma emenda parlamentar do deputado federal Mário Frias (PL-SP). A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, negou que o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro tenha recebido recursos municipais, afirmando em nota que “repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos” e que o contrato com o ICB seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade.
A reportagem tentou contato com a Go Up, o ICB e Karina, mas não obteve retorno. Em outras oportunidades, todos negaram qualquer irregularidade.
Entre as irregularidades investigadas estão quatro faturas emitidas pela empresa Make Onde Tecnologia Digital Ltda, totalizando R$ 8,5 milhões, que foram apresentadas sem a emissão das respectivas notas fiscais ou recolhimento tributário. As faturas têm numeração sequencial e foram emitidas na mesma data, sugerindo possíveis fraudes. A Make One foi uma das empresas contratadas pelo ICB para a execução dos 5 mil pontos de Wi-Fi e também foi alvo das buscas. O espaço segue aberto para a defesa.
Além da Make One, a investigação apura notas fiscais emitidas pela empresa Complexys Soluções Integradas, que totalizavam R$ 2 milhões, mas que foram canceladas no mesmo dia da emissão. Outra empresa que pode ter sido utilizada para justificar gastos do ICB é a JR Feijão Ltda, que recebeu R$ 406 mil em 2024. Há ainda suspeitas de autofaturamento e duplicidade de faturas, conforme parecer da Secretaria Municipal.
