EUA classificam facções brasileiras como terroristas e geram debate sobre soberania A recente decisão do governo dos Estados Unidos de incluir facções criminosas do Brasil na lista de organizações terroristas reacendeu o debate sobre a autonomia do país e possíveis impactos na política externa brasileira, apontam especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais.
EUA classificam facções brasileiras como terroristas e geram debate sobre soberania
Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Borba Casella, o enquadramento como organização terrorista autoriza Washington, pela legislação norte-americana, a realizar ataques contra supostos agentes dessas facções sem necessidade de declaração formal de guerra ou aval do Congresso. Casella compara o cenário ao que ocorreu com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, sequestrados em Caracas em 3 de janeiro.
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que a medida integra a chamada “doutrina da soberania limitada”, aprofundada pela gestão Donald Trump. Em novembro de 2025, a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA passou a enfatizar a primazia norte-americana sobre a América Latina, sustenta o pesquisador.
Teixeira destaca ainda que a classificação de organizações mexicanas, como o cartel de Jalisco, seguiu o mesmo modelo. Na ocasião, agentes da CIA ingressaram no México sem autorização do governo central, culminando na morte de dois operativos em um acidente automobilístico em abril deste ano. Para ele, os casos demonstram que rotular grupos como terroristas costuma ser acompanhado de ações no terreno.
Na avaliação do economista Luiz Carlos Prado, também da UFRJ, a designação das facções brasileiras como terroristas pode abrir caminho para que movimentos sociais internos sejam apontados, sem provas, como apoiadores dessas organizações. “Trata-se de um mecanismo que amplia a margem de pressão sobre o Brasil e subordina sua política doméstica aos interesses americanos”, afirma.
Analistas concordam que a postura mais agressiva de Washington é, em parte, resposta ao avanço econômico e tecnológico da China. A disputa por liderança global se reflete na tentativa de manter influência direta sobre países latino-americanos, avalia o grupo de especialistas ouvido pela Agência Brasil.
O debate sobre soberania ganhou espaço em veículos internacionais de referência, como destaca reportagem da BBC, que analisa as implicações jurídicas da designação de grupos estrangeiros como terroristas pelos EUA.
Enquanto o governo brasileiro ainda avalia quais medidas diplomáticas adotará, acadêmicos alertam que a doutrina aplicada a Brasil, México, Venezuela e Cuba pode tornar-se padrão para a região. “É a tentativa de restaurar a hegemonia americana nas Américas”, resume Teixeira.
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Crédito da imagem: Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil
