Vladimir Safatle defende nomear o fascismo sem receio — O filósofo Vladimir Safatle, professor da USP, sustenta que intelectuais precisam reconhecer e nomear o fascismo para compreender o autoritarismo que atravessa democracias liberais, especialmente no Brasil.
Crítica à omissão intelectual
Safatle argumenta que parte dos pensadores evita usar o termo fascismo, restringindo-o à Itália dos anos 1930. Para ele, essa recusa torna-se cumplicidade, pois invisibiliza formas de violência já naturalizadas em certos territórios e contra grupos vulneráveis.
Fascismo como violência sistemática
Na entrevista concedida à Agência Brasil, o autor de “A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais” explica que técnicas de repressão colonial — como supremacismo, desaparecimento forçado e massacres administrativos — foram incorporadas por regimes fascistas históricos e permanecem em vigor. Ele cita episódios de segurança pública em comunidades periféricas como exemplos de violência estrutural que inviabilizam o pleno sentido de democracia.
Racionalidade na adesão ao autoritarismo
Para Safatle, a adesão popular ao fascismo não decorre de ignorância, mas de um cálculo racional: “se não há lugar para todos, melhor garantir o meu”. Essa lógica exige dessensibilização social e enfraquece laços de solidariedade, condição que, segundo o filósofo, se aprofundou durante a gestão da pandemia de covid-19 no Brasil.
Extrema direita e a lógica do sacrifício
Ele diferencia a violência fascista da stalinista: enquanto a segunda busca preservar o Estado, a primeira adota postura suicidária, convertendo a sociedade em “guerra permanente”. Tal característica estaria presente em governos atuais de extrema direita, que normalizam catástrofes climáticas e sanitárias ao invés de enfrentá-las. Um panorama histórico sobre fascismo pode ser consultado na Enciclopédia Britannica, referência externa que contextualiza o debate.
Desafios para política e academia
Safatle defende que partidos, movimentos sociais e universidades repensem estratégias. A prioridade, diz, é admitir a presença do fascismo como elemento constituinte da história brasileira e, a partir daí, oferecer alternativas concretas às crises ecológicas, econômicas e sociais que alimentam a opção autoritária.
O filósofo discute o tema no debate “Novos Fascismos Globais”, marcado para 6 de junho, às 11h40, durante A Feira do Livro, em São Paulo. Ele espera que o encontro estimule pesquisas que não se limitem a diagnoses históricas, mas proponham ações capazes de reconstruir vínculos de cidadania.
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Crédito da imagem: Cecília Bastos/USP Imagens
Fonte: Agência Brasil
