Conversas previstas para esta sexta (19) foram suspensas após vice-presidente americano abandonar a missão. O recuo levanta dúvidas sobre o futuro do acordo de paz entre Washington e Teerã.
As negociações entre os Estados Unidos e o Irã, que estavam programadas para esta sexta-feira (19), na Suíça, foram canceladas, conforme informou o Ministério das Relações Exteriores suíço. O encontro ocorreria no resort de Burgenstock e marcaria o início das discussões sobre a implementação do acordo preliminar firmado entre Washington e Teerã para encerrar o conflito.
A suspensão das conversas se deu após a Casa Branca confirmar que o vice-presidente americano, JD Vance, desistiu da viagem que faria para se reunir com representantes iranianos. O cancelamento gera preocupações sobre a continuidade das tratativas, que ainda enfrentam vários desafios.
Embora um cessar-fogo tenha entrado em vigor após a assinatura do entendimento inicial pelos presidentes dos dois países na quarta-feira (17), há diversos pontos pendentes que precisam ser discutidos para a construção de um acordo definitivo. O documento divulgado pelos Estados Unidos prevê um período inicial de 60 dias para negociações, que pode ser prorrogado por mais dois meses caso não haja consenso.
Entre os principais compromissos do acordo estão a garantia de que o Irã não desenvolverá armas nucleares, o alívio de sanções econômicas impostas por Washington e mecanismos de compensação financeira ao governo iraniano. Contudo, as conversas enfrentam obstáculos relevantes.
Um dos principais impasses envolve a questão nuclear. Teerã insiste que seu programa tem fins pacíficos e condiciona qualquer limitação adicional a garantias de segurança e ao fim das sanções que afetam sua economia há décadas. Além disso, os negociadores precisam definir o futuro do estoque de urânio enriquecido do país e estabelecer limites para o nível de enriquecimento permitido. Atualmente, o Irã possui cerca de 11 toneladas de urânio, incluindo centenas de quilos enriquecidos a 60%.
Outro tema sensível é a situação no Líbano. O governo iraniano exigiu que o cessar-fogo abrangesse também o território libanês, onde Israel mantém operações militares sob o argumento de combater o Hezbollah, grupo aliado de Teerã. Apesar disso, Israel não aderiu ao acordo e já sinalizou que pretende manter tropas em uma faixa do sul do Líbano por tempo indeterminado.
A continuidade das operações militares tem gerado atritos entre Washington e Tel Aviv. Na quinta-feira (18), JD Vance criticou a reação israelense ao entendimento com o Irã, alimentando especulações sobre divergências entre os dois aliados.
Por outro lado, o Estreito de Ormuz se destaca como um dos poucos temas onde há avanços concretos. O acordo prevê a manutenção da passagem de navios comerciais sem cobrança de taxas pelos próximos 60 dias, período em que o Irã se comprometeu a restaurar plenamente a navegação na região, o que já está em vigor, segundo autoridades de Teerã. Essa via marítima é considerada estratégica para o comércio global de petróleo e gás, e sua interrupção prolongada poderia impactar significativamente os mercados internacionais.
Antes do acordo, Teerã chegou a cogitar a cobrança de pedágios de petroleiros para financiar a reconstrução de áreas afetadas pela guerra, proposta que foi rejeitada pelos Estados Unidos.
