Motosserras nas calçadas aceleram o coração de quem passa. Há manuais com medidas e ângulos, mas a execução frequentemente ignora normas técnicas.
Toda vez que encontro uma equipe terceirizada da prefeitura podando árvores na rua, eu diminuo o passo. O coração acelera enquanto antecipo aquilo que cabe a um homem com motosserra na mão decidir como esteticamente e funcionalmente adequado. O uniforme traz um alívio momentâneo: caminhão da empresa contratada, cones no asfalto, capacetes e homens que apontam para a copa enquanto trocam ideias.
O serviço é autorizado pelo poder público municipal; a execução, nem sempre. Existem manuais públicos de poda — documentos cheios de desenhos, medidas, ângulos de corte e recomendações sobre os galhos que podem ou não ser retirados. Explicam poda de formação, de limpeza, de adequação e de emergência; alertam contra cortes excessivos. No papel, a árvore está protegida. O manual, porém, não sobe na caçamba.
Quem sobe é o trabalhador contratado. O uniforme permite reconhecer a empresa. Às vezes imagino que o currículo viesse bordado: aí o cidadão desavisado saberia se o trabalhador recebeu treinamento técnico formal ou aprendeu a podar acompanhando um colega, que aprendeu com outro, talvez com o pai, o avô ou um vizinho do interior, onde se podava como quem resolvia um problema imediato — uma mangueira que sombreava a horta, uma goiabeira “muito fechada”.
O conhecimento prático merece respeito, mas não deveria bastar para decidir o destino de uma árvore urbana de quarenta anos. Lá em cima, alguém manda tirar mais um galho; sai o seguinte porque a copa ficou desigual; outro ameaça os fios. A motosserra facilita o raciocínio: diante da dúvida, corta-se.
Ao final da empreitada, a copa frondosa some; restam um toco e alguns galhos interrompidos. Podar na cidade muitas vezes resume-se a isso: fazer caber a árvore na calçada e, para evitar investimento em gestão de podas, cortar tudo de uma vez. “Vamos para a próxima”, diriam alguns. A árvore continua em pé, e isso parece absolver os envolvidos: não caiu sobre um carro, não atingiu pedestre, não interrompeu o trânsito; apenas encolheu, magra, quase raquítica. Não sei se viverá até a próxima visita.
Vem o sol sobre a calçada, os brotos frágeis, os fungos favorecidos pelos cortes e a perda da sombra que refrescava as casas e dava trégua aos caminhantes. Quando os sinais de dano aparecerem, a equipe estará em outro bairro, cumprindo outra ordem de serviço.
Enquanto isso, contamos árvores por satélite, medimos ilhas de calor, anunciamos metas de arborização e comemoramos cada muda plantada. Uma árvore jovem, se sobreviver, precisará de décadas para oferecer o que foi retirado de uma adulta numa manhã. Escrevo na esperança de que governos e políticos — aqueles que em poucos dias escolheremos — proponham ações concretas para questões climáticas urgentes: os que morrem de calor, os que a enxurrada levou, os que a terra soterrou, os que respiraram fumaça até não poder mais.
A palavra “poda” deveria sugerir cuidado, controle e conhecimento: servir tanto para a retirada criteriosa de um galho doente quanto para intervenções que deixam a árvore irreconhecível. Perguntei a um dos homens se era necessário cortar tanto. Ele olhou para a copa, depois para mim e respondeu:
É para ela crescer.
