Hoje, muitas pessoas aparentam normalidade enquanto enfrentam pensamentos suicidas; o sofrimento nem sempre é visível. Conhecer sinais discretos e conversar pode fazer a diferença entre viver e morrer.
HOJE, Dia Mundial da Saúde Mental, é importante lembrar que uma pessoa pode sorrir, trabalhar, cuidar dos filhos e, ainda assim, estar pensando em desistir da própria vida. Essa realidade muitas vezes passa despercebida, e a reflexão proposta merece atenção da sociedade.
Existe uma ideia equivocada de que sofrimento emocional grave é sempre visível. Muitas pessoas acreditam que quem sofre estará necessariamente isolado, chorando ou afastado da rotina. Mas a vivência clínica mostra outra complexidade: é possível funcionar por fora e, por dentro, carregar uma dor profunda e silenciosa.
Ao falar de prevenção, cabe distinguir dois conceitos. Evitar uma morte implica intervir numa crise já instalada, oferecendo acolhimento, tratamento e suporte no momento em que a pessoa não enxerga saída. Salvar uma vida tem um sentido mais amplo: é ajudar alguém a reencontrar motivos para continuar vivendo antes que a crise ocorra, reconstruir vínculos, recuperar sonhos e fortalecer o sentido da existência.
Ao longo dos anos de consultório, o autor observou que muita gente mantém compromissos e rotinas enquanto convive com sofrimento. Essa constatação indica que a prevenção não pode se limitar ao manejo de emergências: precisa incluir ações que promovam pertencimento, escuta e propósito.
Vivemos uma época em que se fala mais sobre saúde mental e, ao mesmo tempo, há muitas pessoas emocionalmente exaustas. A informação e o diagnóstico aumentaram, mas, em paralelo, talvez tenhamos desaprendido a olhar para pessoas além dos sintomas. Aprendemos a perguntar o que alguém tem; nem sempre perguntamos como alguém está vivendo.
O sofrimento costuma se instalar aos poucos: isolamento progressivo, perda de interesse por atividades antes prazerosas, sensação persistente de vazio e desesperança. Frases que costumam ser minimizadas são sinais de alerta. Entre elas estão:
“não aguento mais”
“queria desaparecer”
“seria melhor se eu não estivesse aqui”
O medo de falar sobre suicídio ainda é comum. Entretanto, a prática clínica indica que perguntar sobre pensamentos suicidas, de forma acolhedora, não incentiva o ato; ao contrário, pode oferecer à pessoa a primeira oportunidade de falar sobre algo que vinha enfrentando em silêncio.
Escutar de verdade permanece como uma das formas mais poderosas de cuidado: perceber mudanças, acolher silêncios, suportar conversas difíceis sem respostas prontas e permanecer presente quando alguém tem dificuldade de colocar em palavras o que sente. Em um mundo acelerado e distraído, a escuta é um gesto raro e valioso.
Por tudo isso, a defesa da saúde mental precisa ir além de evitar mortes — é preciso criar condições para que as pessoas encontrem motivos para viver plenamente. Em última instância, isso é o que pode significar salvar vidas.
Dr. Luís Carlos Murari — CRM: 52.0112784-5 | RQE:
