No dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, o padre católico Robson Gavioli estava em um retiro de sacerdotes perto da fronteira com a Hungria. A orientação aos religiosos estrangeiros era clara: quem quisesse deixar o país e voltar à própria terra poderia fazê-lo. Do Brasil, seu pai, Osnir, ligou para perguntar se Robson queria voltar e, se afirmativo, a família providenciaria a passagem. Porém, ele não retornou.
“Pai, se eu for embora, em vão será meu ministério sacerdotal”, disse. “Se você deseja ficar, vou sofrer com você”, respondeu Osnir.
A mãe de Robson, preocupada com as notícias cada vez mais frequentes de bombardeios, também pediu que ele voltasse. O sacerdote respondeu: “Mãe, já estou em casa”.
Robson, então, entrou em uma van com outros padres e seguiu de volta para Vinnytsia, no oeste ucraniano, onde exercia seu sacerdócio. No caminho, militares pararam o veículo e estranharam o movimento. Enquanto famílias fugiam dos bombardeios, aqueles padres faziam o trajeto inverso. Os soldados perguntaram quem eram, para onde iam e se carregavam armas. Robson respondeu que eram sacerdotes, que a missão deles era pregar o Evangelho e que a arma deles era somente a Bíblia.
A decisão de Robson só se entende pelo caminho que o havia levado até ali. Ele nasceu em Urânia, interior paulista, em outubro de 1989, e sua família se mudou para São José do Rio Preto quando ele tinha dois anos e meio. Foi ali que fez a primeira comunhão, recebeu a crisma e se tornou salmista. Com um jovem comum, ele também estudava e jogava futebol.
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O chamado ao sacerdócio veio em um encontro do Caminho Neocatecumenal, em Barretos (SP). Robson iniciou seu acompanhamento com uma equipe de Marília (SP) e, aos 21 anos, entrou no seminário em Brasília. Após um encontro na Itália, o sorteio indicou a Ucrânia como seu destino, e ele aceitou a missão. No país, estudou filosofia e teologia, foi ordenado sacerdote em 20 de junho de 2021.
Com a guerra, a vida de Robson se transformou. Vinnytsia, onde ele vivia, passou a ser um ponto de passagem para refugiados que fugiam da guerra. A paróquia onde atuava acolheu essas famílias com comida, roupas e orientação espiritual, antes que decidissem seguir viagem ou tentar voltar para casa. Robson resumiu seu trabalho ao afirmar: “Não deixamos o irmão seguir jornada sem uma palavra de vida e esperança”.
Essa palavra não era dirigida apenas aos católicos. Ele relatou o caso de um muçulmano sírio que havia sido acolhido pela igreja e voltou para participar da missa de domingo. Para Robson, esse momento demonstrou que as barreiras impostas pelas religiões podem ser superadas. “Estamos colocando em prática o maior ensinamento de Cristo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, disse.
Apesar de sua paróquia estar distante da linha de frente, Vinnytsia vivia sob a tensão dos alarmes antiaéreos. Durante uma madrugada, um míssil atingiu uma instalação militar próxima, e Robson filmou a fumaça do ataque, enviando o vídeo à família no Brasil.
Nas conversas com os pais, Robson expressava seus medos e pedia orações. Embora tivesse vontade de voltar ao Brasil, a vontade de ficar na Ucrânia era maior. Mesmo em suas visitas ao Brasil, seu pai percebeu que o filho estava tenso, refletindo a realidade de um sacerdote que decidiu permanecer em um país em guerra.


