O Novo Desenrola Brasil, recentemente instituído pela Medida Provisória nº 1.355/2026, se apresenta como uma nova tentativa de renegociação de dívidas, apenas três anos após a sua versão anterior. A iniciativa, que surge em um período pré-eleitoral, levanta preocupações sobre sua eficácia em lidar com as causas do endividamento familiar. Especialistas alertam que o programa pode, na verdade, perpetuar um ciclo de dependência do auxílio estatal e piorar as condições de crédito para a população.
Segundo uma nota técnica divulgada pela associação civil Livres, a proposta de oferecer descontos significativos e garantias do Tesouro Nacional para a renegociação de dívidas pode enviar um sinal problemático ao mercado. A mensagem implícita é de que aqueles que não pagam suas dívidas podem esperar novas oportunidades de alívio em períodos eleitorais futuros. Essa perspectiva, conforme apontam os especialistas, não é apenas teórica, mas já se refletiu nas experiências anteriores do programa.
O governo parece ignorar as evidências de que os devedores tendem a utilizar o novo crédito subsidiado não apenas para substituir dívidas caras por mais baratas, mas para aumentar ainda mais seu endividamento. A análise sugere que o programa pode agir como uma “limpeza de balanços” superficial, aliviando temporariamente a pressão sobre as famílias, mas sem resolver a verdadeira incapacidade de planejamento financeiro que as levou ao superendividamento.
A situação se complica com o crescente número de tomadores de crédito no Brasil, que saltou de 65,8 milhões em 2020 para 93,6 milhões no final de 2024, impulsionado pela digitalização e pela popularização do Pix. Apesar dessa democratização do acesso ao crédito, não houve um fortalecimento correspondente da educação financeira, o que torna arriscada a reativação de um programa de perdão de dívidas em um contexto já fragilizado.
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Outro ponto crítico é quem realmente se beneficia com a nova medida. A definição dos descontos parece desconectada de estimativas técnicas de perda esperada e indica uma maior preocupação das instituições financeiras em recuperar créditos inadimplentes, utilizando garantias estatais, do que em promover um planejamento fiscal sustentável.
A falta de diálogo com o Banco Central e o Tesouro Nacional também contribui para essa percepção negativa. A MP altera funcionamento do Sistema Financeiro Nacional sem o rigor institucional necessário.
Para enfrentar de forma efetiva o endividamento familiar, a nota técnica do Livres propõe a implementação de ações permanentes de educação financeira, maior coordenação com órgãos técnicos especializados, revisão da política fiscal e avaliação criteriosa das operações de renegociação financiadas com recursos públicos. Sem abordar essas causas estruturais, programas de renegociação podem se tornar uma solução temporária e ineficaz para aqueles que mais precisam.
