Em 30 de maio de 1959, quase nove anos após o Maracanazo, Nelson Rodrigues publicou crônica que resgatou a imagem do goleiro Moacir Barbosa. Apesar da vitória do Santos sobre o Vasco, Rodrigues fez de Barbosa o personagem da semana.
Em 30 de maio de 1959, quase nove anos depois do fatídico 16 de julho de 1950, quando a seleção perdeu a Copa para o Uruguai no Maracanã, o cronista Nelson Rodrigues publicou uma crônica exaltando o goleiro Moacir Barbosa. Naquela edição, Rodrigues destacou o arqueiro vascaíno, que na época tinha 38 anos de idade, mesmo diante da vitória do Santos sobre o Vasco por 3 a 0, no Pacaembu, pelo torneio Rio–São Paulo.
O resultado deu o título ao time da Vila Belmiro, mas o personagem da semana, segundo a crônica, foi Barbosa. Nelson Rodrigues recorreu à memória do público e à imagem construída em torno do gol de Ghiggia, em 1950, para defender o goleiro, lembrar sua importância e criticar a injustiça de reduzir uma carreira a um erro.
“(…) Amigos, não existe a menor relação entre Barbosa e a sua idade. Ou melhor: — idade e pessoa não coincidem no arqueiro vascaíno. Ele tem o quê? Uns 37, 38 anos. Para as outras atividades, o sujeito pode ter isso ou mais, impunemente. Mas o tempo, no futebol, é rapidíssimo. Um minuto vale um mês ou mais. E, aos 37 anos, o indivíduo é gagá para a bola, e insisto: — o indivíduo baba de uma velhice irremediável. A própria bola o refuga e trai. E Barbosa continua notícia, continua fato pelo seguinte: — porque é eterno. (…) Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota. Vejam 50. Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta da derrota. O gol de Ghiggia ficou gravado, na memória nacional, como um frango eterno. (…) Qualquer um outro estaria morto, enterrado, com o seguinte epitáfio: — ‘Aqui jaz Fulano, assassinado por um frango.’ Nove anos depois de 50, ele joga contra o Santos, no Pacaembu. Funcionou num time de reserves contra um dos maiores, senão o maior time do Brasil. E foi trágico, amigos, foi trágico! Começa o jogo e, imediatamente, Pelé invade, perfura e, de três metros, fuzila. Fosse outro, e não Barbosa, estaria perguntando, e até hoje: — ‘Por onde entrou a bola?’ Barbosa defendeu e com que soberbo descaro! Daí para frente, a partida se limitou a um furioso duelo entre o solitário Barbosa e o desvairado ataque santista. Foi patético, ou por outra — foi sublime. E porque, na sua eternidade salubérrima, ainda fecha o gol, eu faço de Barbosa o meu personagem da semana.”
Na crônica, Rodrigues transformou em narrativa a contradição entre a trajetória do jogador e a lembrança implacável do erro fixado na memória coletiva. A peça ressaltou tanto a resistência de Barbosa quanto a crueldade de um julgamento que permaneceu por anos.
Moacir Barbosa morreu pobre, no ano 2000, tendo sido crucificado de forma injusta pela derrota de 1950. As palavras de Nelson Rodrigues, registradas em 1959, procuraram resgatar a dimensão do goleiro como figura genial dentro de campo e como sujeito que continuava a ser notícia apesar da fama negativa que lhe foi imposta.
