Em Nova York, Lula condenou o 'tarifaço' dos Estados Unidos contra produtos brasileiros e criticou interferência externa. No discurso à Assembleia-Geral da ONU, assumiu tom de campanha a 12 dias do primeiro turno.
Em seu último discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, no atual mandato à frente do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o palanque internacional para criticar o chamado “tarifaço” comercial imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e para fazer um discurso com tom de campanha a 12 dias do primeiro turno das eleições gerais brasileiras.
Na fala, o presidente condenou o que chamou de tentativa de interferência externa em assuntos do Brasil e afirmou que o país “não cabe no quintal de ninguém”. Ele evitou citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas fez referência às medidas comerciais adotadas pelos americanos.
“Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos.”
Em outro trecho, Lula criticou medidas que considerou protecionistas disfarçadas de ambientalismo e alertou para o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio diante do uso de tarifas como instrumento de coerção.
“A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos. Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.”
Ao abordar a situação no Estreito de Ormuz, o presidente afirmou que a passagem marítima transformou-se em ambiente de conflito e lembrou o impacto nos preços globais de combustíveis, fertilizantes e alimentos. O texto original destaca que o estreito concentra cerca de 20% a 30% do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito (GNL), sendo considerado um gargalo estratégico para a economia global.
“O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra quando deveria permanecer uma passagem vitral para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.”
Embora falasse em um fórum internacional, o presidente assumiu tom eleitoral ao tratar do pleito que se aproxima. Ele destacou a data de 4 de outubro e colocou a votação como uma escolha entre diferentes rumos para o país.
“No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.”
O presidente reiterou confiança no sistema eleitoral e afirmou que o país não aceitará interferências estrangeiras no processo. Também criticou a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, reafirmando que o Brasil enfrenta o crime organizado e que não pretende terceirizar a defesa de suas fronteiras.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.”
Entre outros temas, o presidente abordou riscos e desafios da inteligência artificial e fez críticas ao mercado de apostas esportivas on-line (bets), responsabilizando empresas por práticas que, segundo ele, endividam famílias.
“Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da IA.”
Por fim, Lula fez críticas ao funcionamento da própria ONU, afirmando que a organização atravessa momento crítico e que há uma crise de liderança global, citando 2003 como data de sua primeira fala naquela tribuna e apontando 2025 como ano com maior número de conflitos armados, conforme suas palavras.
“Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando na missão de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa.”

