Recortes de 1950 mostram a taça Jules Rimet na vitrine da loja 'A Exposição', na rua São José, atraindo multidões. A peça virou ação de marketing e concentrou o comércio carioca dias antes da estreia do Brasil na Copa.
Recortes de jornais de 1950 revelaram uma cena que hoje seria quase impensável: a taça Jules Rimet exposta na vitrine de uma loja no centro do Rio de Janeiro, atraindo multidões dias antes da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo daquele ano. A exposição ocorria na loja de roupas “A Exposição”, na rua São José, perto do Largo da Carioca, um dos pontos mais movimentados do comércio carioca.
A poucos dias do início do torneio, em 24 de junho, a movimentação era explicada pela presença do troféu mais cobiçado do futebol mundial. A loja tinha ações de marketing — como a promessa de crediário imediato para “moços direitos” — mas o público que se aglomerava em frente à vitrine não estava ali pelas promoções: estava ali para ver a taça.
No dia 21 de junho, três dias antes da partida de abertura, Mário Pollo, da CBD (atual CBF), entregou o troféu ao diretor da loja, Júlio Maria de Carvalho e Sá, em uma cerimônia realizada na sede da entidade. A entrega ganhou amplo destaque na imprensa da época.
“Tendo visto inscritos, no pedestal da ‘Copa do Mundo’, os nomes do Uruguai e da Itália como vencedores dos campeonatos passados, não posso deixar de expressar meus votos, que são os de todos nós brasileiros, para que este ano possamos inscrever também no seu pedestal, o nome vitorioso do nosso querido Brasil!”
O trecho acima foi declarado pelo diretor da loja no ato de recepção do troféu, manifestando o desejo de ver o nome do Brasil inscrito no pedestal da competição. Em seguida, Mário Pollo justificou a escolha da loja para a exposição, destacando a ligação da empresa com o esporte e suas iniciativas públicas:
“Por ser uma organização genuinamente brasileira, sempre ligada ao esporte no Brasil, através de iniciativas de grande vulto — na imprensa, na decoração de suas vitrines e nas irradiações dos jogos de futebol.”
Além da cerimônia e da exibição, a casa comercial adotou medidas de segurança: fechou um contrato de seguro no valor de um milhão de cruzeiros para garantir a proteção do troféu durante o período em que ficou exposto ao público.
O fato também recebeu atenção nas publicações esportivas da época: a loja patrocinava o Jornal dos Sports, e o episódio foi elogiado em coluna. O colunista José Lins do Rego registrou a iniciativa em termos positivos:
“’A Exposição’ lavrou um tento com esta iniciativa de mostrar ao público, numa de suas vitrines, a ‘Taça Jules Rimet!’.”
O episódio permanece como um registro curioso da relação entre comércio, imprensa e futebol no Brasil do pós‑guerra, e dá ideia do fascínio que o troféu exercia sobre o público nas vésperas da Copa de 1950.
