Lidar com o autismo já é desafiador. Comentários inadequados de pessoas próximas tornam essa jornada ainda mais difícil. Saiba o que evitar para acolher melhor essas famílias.
A prática da psicologia revela diariamente os desafios enfrentados por crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias. Pais e responsáveis desempenham um papel fundamental no cuidado, na estimulação e na defesa dos direitos de seus filhos, uma dedicação que exige amor, persistência e uma capacidade notável de adaptação.
A rotina dessas famílias é intensa. Entre consultas médicas, sessões de fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicoterapia, compromissos escolares e as demandas do dia a dia, muitas vezes, sobra pouco espaço para descanso. No entanto, o que frequentemente provoca maior desgaste não é o diagnóstico em si, mas a falta de compreensão da sociedade.
Ainda existe muita desinformação sobre o autismo. Comentários feitos sem intenção de ofender acabam causando dor, pois minimizam experiências reais e reforçam preconceitos. Frases aparentemente inofensivas podem carregar julgamentos e desconsiderar os desafios enfrentados por pessoas autistas e suas famílias.
“Mas ele nem parece autista”
Essa é uma das frases mais comuns ouvidas por pessoas autistas e seus familiares. Embora muitas vezes seja dita como um elogio, revela um equívoco: a crença de que o autismo possui uma aparência específica. O autismo não apresenta características físicas visíveis. Muitas pessoas autistas desenvolvem estratégias de adaptação social conhecidas como masking, um esforço constante para reproduzir comportamentos esperados socialmente, esconder desconfortos e minimizar características que possam gerar rejeição. O resultado é um elevado nível de exaustão emocional.
“Hoje em dia todo mundo é um pouco autista”
Outra frase recorrente é a ideia de que todos teriam algum grau de autismo. Embora pareça uma tentativa de aproximação, essa afirmação gera indignação entre autistas, familiares e profissionais da área. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e o processamento de estímulos. Reduzir o autismo a características comuns do cotidiano pode banalizar a experiência de milhões de pessoas.
“Isso é falta de limites. O que ele precisa é de disciplina”
Essa frase é dolorosa para muitos pais e responsáveis. O que muitos classificam como birra ou desobediência pode ser uma sobrecarga sensorial intensa, conhecida como meltdown. Nesses momentos, a criança enfrenta uma situação de sofrimento real diante de estímulos que seu cérebro não consegue processar adequadamente. Quando pais recebem olhares de reprovação, o sentimento é de isolamento e muitas famílias evitam espaços públicos por medo do julgamento.
“Mas ele fala, estuda, trabalha… então não pode ser autista”
Outra ideia comum é que pessoas autistas apresentam limitações na comunicação ou na autonomia. Essa visão ignora a diversidade dentro do espectro. Muitas pessoas autistas têm vida independente, mas isso não elimina os desafios que enfrentam. A aparência de funcionalidade não invalida o diagnóstico nem as necessidades de apoio.
A inclusão começa pelas palavras. Desenvolver uma curiosidade respeitosa e fazer perguntas genuínas sobre os interesses e habilidades da criança demonstra acolhimento e respeito. As famílias de pessoas autistas precisam de apoio, compreensão e empatia. O respeito começa quando deixamos de minimizar a experiência do outro. A inclusão verdadeira nasce desse movimento de escuta e reconhecimento das diferenças.
