M. G., quase 40 anos, diz viver 'o luto de uma pessoa viva' depois que o ex-parceiro passou a se identificar como mulher trans. A mudança gerou conflitos familiares, dívidas e disputas na Justiça.
A história de M. G. começou como a de muitas famílias brasileiras: casada, mãe de uma filha de nove anos, publicitária e dedicada à vida doméstica, seguindo um acordo estabelecido dentro do casamento. Hoje, aos quase 40 anos, M. G. diz viver as consequências de um processo que define como um “luto de uma pessoa viva”. O ex-marido, B.J., com quem viveu por quase nove anos, passou a se identificar inicialmente como gênero fluido e, posteriormente, como “mulher trans”.
A mudança de identidade de B.J. desencadeou uma série de conflitos familiares, dificuldades financeiras e disputas judiciais que ainda estão longe de um desfecho. “As pessoas falam apenas sobre quem faz a transição”, observou M. G. “Ninguém fala sobre quem tem de enfrentá-la ao lado.” Para ela, o apoio da estrutura familiar foi fundamental durante esse período conturbado. “Não fosse a minha base mais tradicional, eu teria ido embora”, afirmou em uma entrevista realizada em 2025.
M. G. relatou que a transformação do ex-marido foi gradual. Ele começou a adotar comportamentos e características femininas, inicialmente sem se assumir como trans. No entanto, a mudança provocou impactos profundos dentro de casa. “Em meio a uma briga, ele admitiu ser ‘gênero fluido'”, disse M. G. “Tínhamos uma filha e, antes disso, ele me convenceu a ter um segundo filho, mas descobrimos que ele tinha uma condição de saúde que o tornava estéril.”
Buscando entender a situação e preservar a família, M. G. procurou ajuda profissional. Contudo, sentiu que suas preocupações eram desconsideradas. “A palavra da comunidade LGBTQIA+ prevalecia e a da mulher ficava em segundo plano”, recordou. “Ouvi de especialistas que eu deveria aguentar firme para que ele fizesse a transição tranquilamente.” B.J. expressou que não se via como mulher trans devido ao estigma associado à hiperssexualização dentro da comunidade.
A situação afetou também a filha do casal, que apresentou sinais de sofrimento emocional, como raiva e tristeza. M. G. destacou que sua filha viveu dois lutos: o primeiro ao perder o pai que conhecia e o segundo quando o pai que ocupava aquele espaço passou a agir de forma completamente diferente. O período foi marcado por afastamento familiar e conflitos constantes, com M. G. sendo acusada de transfobia ao tentar questionar as mudanças.
Após anos de desgaste, o casamento chegou ao fim. M. G. relatou que, ao chegar em casa com a filha, foi “expulsa de casa” e descobriu dívidas que desconhecia, resultantes de empréstimos feitos pelo ex-marido. Ela recorreu à Justiça para obter medidas protetivas, regulamentação da guarda da filha e definição de pensão alimentícia, com parte das decisões reconhecendo violência patrimonial e psicológica.
Atualmente, M. G. enfrenta dificuldades financeiras e depende parcialmente da ajuda dos pais para sustentar a filha. Após anos fora do mercado de trabalho, precisou retomar a carreira em meio aos processos judiciais. Apesar das adversidades, seu principal objetivo permanece: “Quero estabilidade para minha filha e condições de seguir em frente”.
O relato de M. G. se soma a outros casos semelhantes discutidos em grupos de apoio a mulheres que enfrentam dificuldades quando seus parceiros se identificam como trans. A associação Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil (Matria) registrou um aumento de relatos de mulheres que lidam com dificuldades emocionais, familiares e jurídicas após a transição de gênero de seus companheiros. O termo “viúvas trans” tem sido utilizado para descrever essas situações, refletindo a perda e a desestruturação familiar que muitas enfrentam.
