EUA recuam em acusar Maduro de liderar Cartel de Los Soles
EUA recuam em acusar Maduro de liderar o suposto Cartel de Los Soles, segundo nova denúncia do Departamento de Justiça norte-americano. O documento, protocolado no início de janeiro, exclui a alegação de que o presidente venezuelano comandava a organização apontada por Washington em 2020.
Nova peça reduz menções ao cartel e foca em corrupção
No indiciamento original, apresentado ainda no governo Donald Trump, a expressão “Cartel de Los Soles” foi citada 33 vezes, qualificando Nicolás Maduro como líder do grupo. Já na atualização entregue recentemente, o termo aparece apenas duas vezes, sem relacionar o mandatário à chefia da suposta rede de narcotráfico.
O texto atual afirma que Maduro “participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção” que beneficia “elites venezuelanas poderosas” envolvidas com o tráfico de cocaína. A acusação indica que os lucros fluem para funcionários corruptos que operam num sistema chamado, de forma genérica, de Cartel de Los Soles, alusão à insígnia de sol usada por oficiais militares de alta patente.
Especialistas apontam dificuldade de provar existência do cartel
Gabriela de Luca, consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, avalia que a mudança reconhece os limites das autoridades norte-americanas para demonstrar a estrutura do cartel. “Não emergiram evidências suficientes para caracterizar uma organização criminosa”, explicou a jurista, ressaltando lacunas apontadas até por parceiros de inteligência dos EUA.
Ela acrescentou que o enquadramento atual fortalece o caso, pois concentra a denúncia em condutas individualizadas — narcotráfico, corrupção e associação criminosa — evitando sustentar “um rótulo amplo e conceitualmente frágil”. A abordagem também dialoga com advertências da ONU, que desestimula o uso indiscriminado do termo cartel como justificativa para sanções de grande escala contra Estados inteiros.
Acusações de narcotráfico permanecem
Apesar do recuo sobre a liderança do Cartel de Los Soles, Washington mantém acusações de que Maduro colaborou com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), com o Exército de Libertação Nacional (ELN) e com cartéis mexicanos como Sinaloa e Zetas. Segundo o Departamento de Justiça, essas parcerias teriam facilitado o envio de “toneladas de cocaína” aos Estados Unidos.
Defesa de Maduro e disputa pelo petróleo venezuelano
Em depoimento à Justiça norte-americana, Maduro declarou-se inocente e afirmou ser “prisioneiro de guerra” desde que foi capturado por militares dos EUA em 3 de janeiro. Caracas sustenta que as acusações visam legitimar a intervenção estrangeira para controlar as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Na Organização dos Estados Americanos, o embaixador estadunidense Leandro Rizzuto declarou que “a maior reserva de petróleo do mundo não pode ficar nas mãos de adversários do Hemisfério Ocidental”, reiterando pressão para que o novo governo interino de Delcy Rodríguez conceda acesso aos campos de óleo venezuelanos.
No contexto dos debates internacionais sobre narcotráfico e soberania, a revisão da denúncia contra Nicolás Maduro sinaliza uma estratégia jurídica diferente dos EUA, mas mantém abertas frentes de acusação que podem impactar a política regional.
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Crédito da imagem: Reuters
Fonte: Reuters
