EUA na Venezuela: especialistas veem ameaça à ordem global
EUA na Venezuela: especialistas veem ameaça à ordem global — A incursão militar norte-americana em 3 de janeiro para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro expôs, segundo analistas, novos riscos à soberania regional e ao sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial.
EUA na Venezuela: especialistas veem ameaça à ordem global
Ação militar e acusações de narcotráfico
Tropas dos Estados Unidos removeram à força Maduro e a primeira-dama Cilia Flores de Caracas, resultando em explosões e mortes de integrantes da guarda presidencial. Transportado para Nova York, o mandatário passará a responder, em solo norte-americano, por alegada ligação a cartéis de drogas que abasteceriam o mercado interno dos EUA.
O cientista político Bruno Lima Rocha, da Faculdade São Francisco de Assis, classifica o episódio como “ataque direto à soberania venezuelana”. Ele ressalta que não existe, no direito internacional, autorização para que Washington atue como “polícia do mundo” nem poder delegado pela ONU para capturar líderes estrangeiros.
Impacto na América do Sul
Rocha alerta para possíveis repercussões em países sul-americanos ricos em petróleo ou minerais estratégicos. Caso governos da região reforcem monopólios estatais ou firmem acordos com Rússia e China em moedas alternativas ao dólar, o risco de pressões semelhantes aumentaria, avalia o especialista.
Na mesma linha, Gustavo Menon, professor da USP e da Universidade Católica de Brasília, enxerga o Brasil em “posição delicada” e aposta na manutenção da via diplomática, historicamente baseada na não intervenção e na resolução pacífica de conflitos. “A intervenção armada em território sul-americano quebra o status de região de paz”, destaca.
Desgaste do sistema multilateral
Para ambos os pesquisadores, a operação fragiliza as instituições multilaterais criadas em 1945. Menon considera que o episódio sinaliza “colapso” do arranjo pós-guerra, enquanto Rocha afirma que o governo Trump “colocou na lata do lixo” princípios da ONU.
Reportagem da agência Reuters lembra que, além da ausência de mandato internacional, não houve autorização do Congresso dos EUA para a ação, o que também fere a legislação doméstica norte-americana.
Próximos passos e disputa por recursos
Menon observa que o petróleo venezuelano, o maior do planeta em reservas provadas, permanece no centro da disputa. Segundo ele, a Casa Branca envia mensagem clara a Pequim e Moscou de que a América Latina continua sob forte influência de Washington.
Rocha acrescenta que a ofensiva pode abrir precedente para interferências militares ou financeiras em outras nações latino-americanas. “Trata-se de uma ameaça a todos os países da região, seja por invasão, chantagem econômica ou manobras eleitorais”, conclui.
Analistas concordam que a reação de organismos como ONU, OEA e os próprios governos sul-americanos será decisiva para definir se o episódio representará exceção ou novo paradigma de segurança continental.
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Crédito da imagem: Reuters
Fonte: Agência Brasil
