Eleição no Peru define 9º presidente em década de turbulência mobiliza cerca de 27 milhões de eleitores em 7 de junho de 2026, quando a direitista Keiko Fujimori e o esquerdista Roberto Sánchez Palomino medem forças no segundo turno e podem encerrar ou prolongar dez anos de instabilidade institucional.
Eleição no Peru define 9º presidente em década de turbulência
Desde 2016, o Peru testemunhou dois presidentes que renunciaram e seis cassados pelo Parlamento, apontado por analistas como o verdadeiro centro de poder em Lima. A nova votação coloca o país diante do nono chefe de Estado em apenas uma década, cenário que evidencia a força do Legislativo e a fragilidade dos mandatos executivos.
No primeiro turno, realizado em abril, Keiko Fujimori liderou com 17,1% dos votos, enquanto Roberto Sánchez somou 12,0%. A diferença apertada mantém o prognóstico indefinido. Especialistas consultados veem a candidatura de Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), como fator de forte polarização: ela herda tanto a base conservadora do pai quanto o elevado índice de rejeição ligado às denúncias de violações de direitos humanos e esterilizações forçadas durante aquele governo.
Sánchez, por sua vez, é deputado, ex-ministro e aliado do ex-presidente Pedro Castillo. Ele promete revisar a Constituição promulgada no fujimorato e ampliar programas sociais focados em população rural, segmento cuja participação é considerada difícil de medir nas pesquisas e que foi decisivo para a vitória de Castillo em 2021.
Castillo acabou deposto e preso após tentar dissolver o Congresso, movimento classificado como tentativa de golpe. Sua queda desencadeou protestos violentamente reprimidos pela então vice Dina Boluarte, cuja gestão também foi interrompida pelo Legislativo. Depois dela, o presidente do Congresso, José Jerí, e o deputado José María Balcázar Zelada ocuparam o Palácio Pizarro de forma interina, ambos por poucos meses, acentuando a percepção de crise permanente.
Para Salvador Schavelzon, antropólogo da Universidade Federal de São Paulo, a eventual vitória de Fujimori reforçaria o status quo de aproximação com Washington, em linha com governos recentes de países como Equador e Argentina. Já um triunfo de Sánchez, avalia o professor, teria caráter pragmático: sem base sólida no Parlamento, ele tenderia a priorizar a sobrevivência política antes de buscar mudanças radicais na orientação externa. Declarações semelhantes foram publicadas pela agência Reuters, que destaca o papel do Legislativo no desfecho eleitoral.
Riscos e perspectivas pós-votação
Independentemente de quem vença, a governabilidade volta a ser o maior desafio. O Congresso, fragmentado em dezenas de siglas, já sinaliza que usará o mecanismo de vacância presidencial sempre que considerar necessário. A adoção de reformas constitucionais, prometida por Sánchez e rechaçada por Fujimori, depende de maioria qualificada, algo improvável sem amplas coalizões.
Observadores regionais apontam que a volatilidade peruana afeta a balança geopolítica sul-americana. Uma administração alinhada à direita pode fortalecer agendas de livre-comércio e segurança hemisférica, enquanto um governo de centro-esquerda poderia tentar retomar pautas integracionistas, ainda que limitado por resistências internas.
Enquanto as urnas definem o próximo ocupante do cargo, a população encara inflação alta, crescimento econômico abaixo do potencial e índices de pobreza que voltaram aos níveis de uma década atrás. A expectativa é de que o vencedor anuncie rapidamente medidas que sinalizem estabilidade, condição considerada imprescindível para destravar investimentos e recuperar a confiança da sociedade.
Resta saber se o resultado de 7 de junho representará uma inflexão ou apenas mais um capítulo na crônica sucessão de presidentes peruanos. A contagem dos votos será acompanhada de perto por observadores internacionais, partidos e pelo próprio Congresso, pronto a agir conforme a correlação de forças que emergir das urnas.
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Crédito da imagem: REUTERS/Alessandro Cinque
Fonte: Reuters
