Altenis Galavotti Carraretto vendeu o carro por R$17 mil e pegou R$35 mil emprestados para comprar e revender mamão. Ele entrou no ramo em 1998, aos 18 anos, e hoje é fundador da AGC.
Em 2002, Altenis Galavotti Carraretto decidiu trabalhar por conta própria e vendeu o carro por R$17 mil para financiar a ideia. Pegou outros R$35 mil emprestados e começou a comprar e revender mamão. “Tem gente que fala que começou do zero. Eu comecei do negativo”, conta o fundador da AGC, sigla formada pelas iniciais do seu nome.
Ele já havia entrado no ramo em 1998, aos 18 anos, contratado por um produtor para comercializar a fruta na Ceasa da Grande Vitória. Comprava mamão, carregava o caminhão, acompanhava as entregas e aprendia a negociar. Em três ou quatro anos, passou a cuidar praticamente de toda a operação do antigo patrão.
Ao sair, Altenis não disputou clientes com o ex-empregador: enquanto o antigo patrão vendia apenas em Vitória, ele levou a fruta para fora do Espírito Santo, com destino ao Rio de Janeiro e São Paulo. Os primeiros anos foram de compra e venda diária, com o mamão saindo da lavoura direto para caixas de madeira, num processo ainda artesanal. Com o dinheiro que entrou, Altenis também começou a plantar.
A empresa aberta com o valor de um carro processa hoje de 40 a 50 caminhões por dia, o que representa entre 7 milhões e 8 milhões de quilos por mês, e emprega cerca de 800 pessoas. O mamão responde por 90% da receita, segundo o empresário; o restante vem da venda de outras frutas nas centrais de abastecimento.
O Espírito Santo foi destaque na produção: o estado colheu 385,9 mil toneladas de mamão em 2025, cifra que representou 33,3% da produção nacional, segundo dados oficiais divulgados em setembro.
Unidades (packing houses)
- Sooretama (ES): matriz que trabalha sobretudo com papaya e recebe fruta do Espírito Santo e do sul da Bahia.
- Minas Gerais: unidade dedicada ao formosa e ao mercado interno, que capta produção do Vale do São Francisco e do cerrado.
- Baraúnas (RN): instalação exclusiva para exportação.
O grupo atua em todas as etapas: planta, compra de outros produtores, transporta em frota própria e vende em boxes na Ceagesp (São Paulo) e na Ceasa capixaba, além de manter centros de distribuição no Sul e no Nordeste. O processo acumula cinco certificações internacionais, conforme afirmou Altenis. Cada packing house tem um sócio à frente e a empresa segue com capital fechado.
Estar presente em três regiões garante oferta o ano inteiro — requisito que as grandes redes exigem.
“Você tem que ter o produto todo dia”
afirmou o CEO. Há clientes que recebem mamão da AGC praticamente todos os dias do ano, e em algumas redes a empresa é a única fornecedora da fruta, segundo ele.
O mamão é colhido no ponto, com poucas listras amarelas na casca, lavado e encerado no dia seguinte e passa cerca de seis horas em câmara fria antes de seguir viagem. O ideal, explicou o empresário, é que a fruta deixe o packing house no segundo dia e chegue ao mercado no terceiro, já que a vida útil média fica entre sete e 10 dias. Pedidos feitos na segunda ou na terça costumam chegar a São Paulo na quarta.
“Todo dia é uma nova história”
Nas exportações, todo o mamão segue de avião para Europa, Canadá e, eventualmente, Argentina. No início, só o papaya era embarcado; hoje o formosa responde por cerca de 80% das exportações do grupo. No primeiro trimestre de 2026, as vendas externas de frutas do país somaram US$351,1 milhões, alta de 25% sobre igual período de 2025; o mamão avançou 19% em valor e 11% em volume, segundo associação do setor.
Com supermercados, o que se fecha é o volume: os contratos garantem fornecimento, mas o preço é renegociado toda semana e, às vezes, no mesmo dia. As redes costumam recorrer ao leilão reverso. Altenis resumiu a conta: com 10 caminhões e 20 compradores interessados, o preço sobe; na situação inversa, cai. A escala, a qualidade e a pontualidade seguram clientes diante de pequenas diferenças; o risco real surge quando a diferença chega a 15% ou 20%.
Para 2026, a conta ficou mais pesada: falta mão de obra em algumas regiões, o diesel subiu de cerca de R$5 por litro para a faixa de R$6,50 a R$7, e a tabela de piso mínimo do frete elevou custos — conforme o empresário, uma carga saída do Nordeste passou de R$13 mil–R$14 mil para cerca de R$23 mil. Com consumo desaquecido e juros altos, repassar esses aumentos ao varejo não tem sido viável; a expectativa de crescimento para o ano fica entre 5% e 10%.
Altenis cobra mais proximidade entre quem planta e quem vende, e por isso a AGC mantém vendedores nas capitais onde atua para acompanhar o ponto de venda e reportar o estado da fruta.
“Quanto mais o produtor estiver perto do ponto de venda, melhor vai ser o resultado”
Ao consumidor, ele recomenda olhar a origem e o selo de qualidade da embalagem, e não se deixar enganar pela aparência: um mamão de casca mais enrugada pode estar mais saboroso que um de pele lisa e brilhante. O empresário manifestou ambição de fortalecer a marca e citou a Cacau Show como referência para esse projeto.
