Após colisão na Espanha, o jogador Jesús de Miguel morreu e as causas são investigadas. Especialistas alertam: impacto no peito pode causar commotio cordis, arritmia que provoca parada súbita do coração.
A morte do jogador de futebol Jesús de Miguel, após uma colisão durante uma partida na Espanha, chamou atenção para uma condição cardíaca pouco conhecida, mas potencialmente fatal: o commotio cordis. Trata-se de um fenômeno raro em que um impacto na região do tórax pode desencadear uma arritmia grave e provocar uma parada cardíaca súbita, mesmo em pessoas jovens, saudáveis e sem histórico de doença cardiovascular.
Embora ainda seja necessário esclarecer oficialmente as circunstâncias médicas da morte do atleta, o episódio oferece oportunidade para entender melhor como o coração pode ser afetado por um trauma aparentemente localizado.
Para entender o commotio cordis, é preciso lembrar que o coração não funciona apenas como uma bomba muscular. Seus movimentos são coordenados por impulsos elétricos que determinam quando as câmaras cardíacas se contraem e relaxam, permitindo a circulação do sangue pelo organismo. Esse sistema elétrico é extremamente preciso.
Existe um intervalo muito curto do ciclo cardíaco em que o coração se torna particularmente vulnerável a estímulos externos. Quando uma pancada atinge a região anterior do tórax exatamente nesse momento, pode ocorrer uma alteração abrupta da atividade elétrica cardíaca, desencadeando uma fibrilação ventricular. Nessa arritmia, os ventrículos passam a apresentar atividade elétrica desorganizada e deixam de se contrair de maneira eficiente, com perda imediata da capacidade de bombear sangue.
A pessoa pode perder a consciência em poucos segundos e, sem atendimento imediato, a situação pode evoluir rapidamente para a morte. Uma característica importante do commotio cordis é que ele não depende da existência de doença cardíaca prévia: exames cardiológicos podem ser normais, o condicionamento físico pode ser excelente e não haver alterações estruturais no coração.
Diferentemente do infarto, que costuma estar relacionado à obstrução de uma artéria coronária, o commotio cordis resulta de uma alteração elétrica desencadeada por um impacto mecânico. Também é comum não haver lesões estruturais nas costelas ou no músculo cardíaco; o problema é predominantemente elétrico, e a ausência de ferimentos aparentes não significa que o impacto foi inofensivo.
O fenômeno é mais frequentemente descrito em esportes com possibilidade de impactos no tórax, como beisebol, hóquei e artes marciais, além de modalidades de contato físico como o futebol. Nem toda pancada no peito oferece esse risco: é necessária uma combinação específica de fatores, incluindo localização do impacto, características mecânicas e, sobretudo, o momento em que ele ocorre no ciclo elétrico cardíaco.
Quando o coração deixa de bombear sangue adequadamente, o cérebro é um dos primeiros órgãos a sofrer as consequências da falta de oxigênio. Mesmo quando as manobras de reanimação restabelecem a circulação, pode haver comprometimento neurológico, dependendo do tempo e da intensidade da redução do fluxo sanguíneo cerebral.
Diante de uma parada cardíaca súbita, cada minuto é decisivo. A primeira medida é reconhecer a emergência, acionar o serviço de atendimento médico e iniciar as manobras de reanimação cardiopulmonar. Quando a parada é provocada por fibrilação ventricular, o desfibrilador externo automático (DEA) pode restabelecer um ritmo organizado por meio de um choque elétrico. Quanto mais rápido for o atendimento, maiores são as chances de sobrevivência e menores os riscos de sequelas.
A presença de desfibriladores em instalações esportivas, escolas, academias e locais de grande circulação, acompanhada de treinamento das equipes, representa uma estratégia importante para prevenção de mortes evitáveis. O caso de Jesús de Miguel reforçou a mensagem de que, embora o commotio cordis seja raro, suas consequências podem ser devastadoras e o conhecimento sobre o fenômeno e a capacitação para agir nos primeiros minutos podem transformar um desfecho fatal em chance de sobrevivência.
Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore – CRM 24264 | RQE 69372
