Câncer em pessoas trans: preconceito dificulta rastreio
Câncer em pessoas trans: preconceito dificulta rastreio Câncer em pessoas trans segue sendo identificado tardiamente no Brasil, resultado direto do estigma que ainda permeia consultórios, recepções e até protocolos médicos.
Câncer em pessoas trans: preconceito dificulta rastreio
O analista de mídias sociais Erick Venceslau descobriu um nódulo maligno no seio depois que o tumor já atingia 3 centímetros. Logo no início da quimioterapia, o volume havia dobrado. O receio de sofrer transfobia afastava o paciente dos exames de rotina — cenário que se repete em grande parte da população trans, segundo a presidente regional da Sociedade Brasileira de Mastologia, Maria Julia Calas.
“Há preconceito desde a portaria do hospital até o consultório”, afirma a mastologista. Como consequência, homens trans deixam de realizar mamografia quando ainda têm tecido mamário, e mulheres trans nem sempre recebem orientação sobre câncer de próstata, cuja incidência permanece mesmo após a inibição hormonal.
Para enfrentar a lacuna, Maria Julia e a oncologista Sabrina Chagas lançaram, em novembro de 2025, o guia oncológico “Nosso Papo Colorido”, voltado à população LGBTQIAPN+. Sabrina destaca que raça, etnia e identidade de gênero ainda são negligenciadas nos protocolos oncológicos. “A oncologia avançou, mas não para todos”, resume.
Entre as recomendações já consolidadas, a dupla ressalta:
- Mamografia anual para homens trans que não realizaram mastectomia.
- Rastreamento de mama também para mulheres trans em uso prolongado de estrogênio.
- Exames de PSA e avaliação clínica individualizada para mulheres trans, ajustados à menor referência hormonal.
- Coleta de HPV em qualquer pessoa com útero.
A Sociedade Brasileira de Mastologia, em parceria com o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Febrasgo, prepara diretrizes específicas de rastreio para pessoas trans, com publicação prevista para o início de 2026. “Enquanto esperamos novos documentos, médicos já podem garantir atendimento acolhedor e linguagem respeitosa”, acrescenta Calas.
A falta de preparo do sistema público e privado gera dados preocupantes. Relatório da Organização Mundial da Saúde indica que barreiras institucionais reduzem em até 30% a adesão de pessoas trans a campanhas de prevenção.
Nas redes sociais, Erick revela fases do tratamento e do processo transexualizador. “Cerca de 80 % do meu sucesso veio da equipe médica e do apoio da minha esposa; o restante veio do acolhimento online”, relata ele, defendendo que empatia também salva vidas.
Combater o estigma, ampliar capacitação profissional e publicar protocolos inclusivos são passos decisivos para que diagnósticos deixem de chegar apenas em estágios avançados, reforçam as especialistas.
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Crédito da imagem: Antra/Divulgação
Fonte: Agência Brasil
