A política externa brasileira, construída sobre equilíbrio e autonomia, enfrenta sua maior inflexão em décadas. Analistas alertam para os riscos de um alinhamento com Teerã.
A diplomacia brasileira, historicamente respeitada e marcada por prudência e equilíbrio, enfrenta um momento de transformação. Desde o período imperial, o Brasil construiu uma política externa que priorizava a negociação e a autonomia, mas essa tradição pode estar em risco.
Para entender as mudanças atuais, é necessário olhar para o passado. Em 1979, a Revolução Islâmica no Irã mudou o panorama geopolítico. O regime do xá Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos, foi derrubado e deu lugar a uma teocracia xiita sob o comando de Ruhollah Khomeini, que estabeleceu um eixo de hostilidade em relação ao Ocidente, especialmente aos EUA e a Israel.
Curiosamente, a revolução contou com o apoio de setores da esquerda mundial, que viam no novo regime um potencial aliado contra o imperialismo americano. No entanto, após consolidar seu poder, Khomeini reprimiu esses aliados. Mesmo assim, a retórica antiocidental do regime encontrou simpatia entre alguns movimentos progressistas, que passaram a ver o Irã como um ator “anti-hegemônico”.
No cenário latino-americano, a relação entre governos de esquerda e Teerã se intensificou. Países como Venezuela, Bolívia e Nicarágua firmaram acordos com o regime iraniano, buscando ignorar as sanções internacionais que o isolam. O Brasil, por sua vez, tem uma história de aproximação com o Irã, que remonta a contatos de dirigentes do Partido dos Trabalhadores nos anos 1980.
Com a ascensão de Lula ao poder, essa relação se consolidou. Em 2009, o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitou o Brasil, e, no ano seguinte, Lula foi a Teerã para intermediar um acordo sobre o programa nuclear iraniano, que acabou não sendo aceito pelas potências ocidentais.
A relação entre Brasil e Irã se intensificou ainda mais em 2023, quando o governo brasileiro permitiu a atracação de navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro, mesmo diante de pressões dos EUA para cancelar a visita. Em 2024, o Irã foi convidado a integrar o bloco dos Brics, ampliando a aliança com países que têm posturas hostis ao Ocidente.
Essa nova orientação diplomática se tornou mais evidente na presidência do Brasil no Brics em 2025, quando a declaração final do bloco condenou ataques ao Irã sem mencionar responsáveis. O próprio Lula afirmou que não se deveria pedir ao Irã que mudasse sua posição sobre Gaza, desconsiderando a retórica agressiva do regime contra Israel.
A recente condenação do governo brasileiro aos ataques dos EUA e Israel ao Irã, além do apoio à solução diplomática da crise, reflete um alinhamento que gera preocupação. Para os Estados Unidos e Israel, qualquer vínculo com Teerã é visto como um risco geopolítico, dada a reputação do Irã como patrocinador de grupos armados no Oriente Médio e seu programa nuclear.
Assim, a mudança na diplomacia brasileira, ao se afastar da tradição de neutralidade do Itamaraty e adotar um alinhamento ideológico com o eixo antiocidental, deve ser acompanhada com atenção, pois pode ter repercussões significativas no cenário internacional.
