Brasil adota cautela entre EUA e Irã e defende diálogo
Brasil adota cautela entre EUA e Irã e defende diálogo enquanto busca conciliar negociações tarifárias com Washington e preservar a parceria estratégica com Teerã, recém-integrada ao Brics.
Posição equilibrada mantém interesses comerciais e políticos
Em comunicado divulgado no sábado (28 de fevereiro), o Ministério das Relações Exteriores condenou a ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos e pediu “máxima contenção” para evitar nova escalada no Oriente Médio. A nota reafirma a defesa brasileira de soluções pacíficas via negociação, linha histórica da diplomacia nacional.
O cenário é particularmente sensível porque Teerã tornou-se membro pleno do Brics em 2024, bloco que já incluía China e Rússia, dois parceiros relevantes de Brasília. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro conduz tratativas para reduzir tarifas impostas em agosto de 2025 pela administração Trump sobre produtos nacionais, algumas delas de até 50%.
Especialistas apontam “balanço delicado”
Para o professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, Itamaraty precisa “construir uma posição intermediária” que não antagonize nem Washington nem Teerã. Segundo ele, o encontro previsto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, no final de março, torna a calibragem diplomática ainda mais complexa.
O professor aposentado da Uerj, Williams Gonçalves, lembra que Brasil, Rússia, China e Irã compartilham no Brics o objetivo declarado de reformar a ordem internacional. “Todos estão, ao menos teoricamente, no mesmo barco”, observa. Ele acrescenta que a postura prudente de Brasília também se explica pelas recentes ações unilaterais de Trump na América do Sul, como a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, fato que reforça a defesa brasileira de não ingerência.
Impactos econômicos possíveis
Leonardo Paz Neves, pesquisador da FGV, avalia que o conflito pode afetar o Brasil de duas maneiras: pelo encarecimento do petróleo, com reflexo inflacionário, e por eventuais restrições ao comércio com o Irã. Em 2025, a corrente de comércio bilateral somou US$ 3 bilhões, com destaque para milho (67,9% das exportações) e soja (19,3%). “Se o Irã ficar cercado por forças navais, embarques brasileiros podem enfrentar obstáculos logísticos”, afirma.
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Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil vendeu US$ 2,9 bilhões ao mercado iraniano em 2025 e importou US$ 85 milhões, acumulando expressivo superávit. Qualquer interrupção prolongada nas rotas marítimas afetaria produtores agrícolas e poderia estimular a busca de novos compradores.
Defesa do direito internacional
No comunicado oficial, o governo brasileiro exortou todas as partes a respeitarem o direito internacional humanitário e a proteger civis e infraestrutura. Argumento semelhante tem sido feito pelo Conselho de Segurança da ONU, que realizou reunião de emergência após os ataques.
Os especialistas ouvidos convergem na avaliação de que Brasília continuará adotando linguagem crítica, porém institucional, chamando EUA e Irã de volta à mesa de diálogo. O objetivo é evitar desgaste com Trump, preservar o comércio agrícola e manter a coesão do Brics na busca por reformas globais.
Na avaliação de Williams Gonçalves, porém, a escalada do conflito pode exigir posicionamento mais incisivo. “Se houver tentativa explícita de mudança de regime no Irã, o Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, terá de reagir de forma mais firme”, afirma.
Por ora, a estratégia segue baseada em cautela, negociação e ênfase multilateral, linha que permite a Brasília conservar espaços de diálogo com potências antagônicas sem comprometer interesses imediatos de comércio e de política externa.
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Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil
