O presidente da Anac afirmou que fiscais encontraram dados falsos da Voepass sobre reparos que nunca foram feitos. As irregularidades são investigadas após o acidente de 9 de agosto de 2024, com 62 mortos.
Na última entrevista ao Fantástico, exibida no domingo, 26, o diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) destacou informações alarmantes sobre a Voepass. Segundo ele, a companhia aérea teria enviado dados falsos a respeito de reparos em suas aeronaves, que na verdade não eram realizados. Essa situação é especialmente preocupante à luz do trágico acidente ocorrido em 9 de agosto de 2024, que resultou na morte de 62 pessoas durante um voo de Cascavel (PR) a Guarulhos (SP).
O presidente da Anac, Álvaro Faierstein, explicou que, durante as inspeções, fiscais da agência se deparavam com situações em que mecânicos da Voepass relatavam a troca de peças, mas, na prática, esses reparos não eram realizados. “Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: ‘Ó, você tem que trocar essa peça aqui’. Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que na prática não tinha trocado nada”, disse Faierstein.
Ele também admitiu que a Anac foi enganada pela Voepass, afirmando: “Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros”.
Após a divulgação do relatório final do acidente pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), a Voepass emitiu uma nota na qual defendeu seus procedimentos de segurança, afirmando que, ao longo de três décadas, sempre adotou práticas rigorosas de segurança e treinamento da tripulação.
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O relatório apontou que a queda do avião foi resultado de um conjunto de falhas que envolveu a empresa, os pilotos e a própria Anac. A investigação, que durou quase dois anos, identificou 19 fatores que contribuíram para o acidente, com 15 deles sendo classificados como de contribuição direta.
Dentre os fatores identificados, destacou-se que a aeronave modelo ATR-72 tinha um limpador de para-brisa inoperante no momento da decolagem. Embora o manual permitisse a decolagem sem esse equipamento, as condições meteorológicas do dia do acidente eram desfavoráveis.
Além disso, a investigação revelou que a Anac não aproveitou condições latentes que foram identificadas no processo de gestão de riscos, caracterizando uma falta de supervisão sobre práticas informais dentro da empresa. Essa é a primeira vez que ações ou omissões da Anac são relacionadas a um acidente aéreo, conforme apontaram técnicos do Cenipa.
O Cenipa também detectou falhas recorrentes em um dos sistemas de degelo da aeronave, que não foram registradas no diário de bordo por nenhuma das tripulações. O encarregado da investigação, tenente-coronel aviador Paulo Mendes Fróes, destacou a normalização de desvios na operação da empresa, onde falhas eram ignoradas para que a aeronave pudesse operar.
Além disso, os pilotos da Voepass foram alvo de críticas por manterem conversas sobre problemas pessoais durante momentos críticos do voo, não seguindo os protocolos recomendados para enfrentar condições adversas, como a presença de gelo. O relatório final analisou mais de 15 mil voos da Voepass entre 2022 e 2024, revelando que as aeronaves apresentaram mais falhas em comparação a outras companhias aéreas.
Os investigadores também concluíram que a carga de trabalho elevada dos pilotos pode ter contribuído para a falta de atenção em momentos críticos, comprometendo a capacidade de tomar decisões adequadas durante o voo.
