O médico democrata venceu a disputa em Michigan com 51,8% contra 46,2% do republicano Mike Rogers. A cadeira, aberta por Gary Peters, ajudou os democratas a conquistar a maioria no Congresso.
O médico Abdul El-Sayed se tornou o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos Estados Unidos ao vencer a disputa em Michigan nas eleições legislativas de meio de mandato realizadas na terça-feira (3). O democrata recebeu 51,8% dos votos, contra 46,2% do republicano Mike Rogers.
A vitória ocorreu em uma das disputas mais importantes para a definição do controle do Senado americano. El-Sayed conquistou a cadeira que será deixada pelo democrata Gary Peters, que decidiu não concorrer à reeleição. O resultado também contribuiu para a conquista da maioria democrata nas duas casas do Congresso.
Filho de imigrantes egípcios e nascido nos arredores de Detroit, El-Sayed representa a ala progressista do Partido Democrata. Durante a campanha, ele defendeu a criação de um sistema público de saúde universal e o cancelamento de dívidas médicas, e procurou concentrar o debate em propostas econômicas e de saúde. Suas posições sobre Israel e a guerra na Faixa de Gaza, porém, provocaram divisões dentro da legenda.
Aos 42 anos, El-Sayed tem formação em biologia, ciência política e medicina, além de um doutorado em saúde pública pela Universidade de Oxford. Antes de ingressar na política, trabalhou como professor de epidemiologia na Universidade de Columbia e dirigiu o Departamento de Saúde de Detroit. Sua primeira tentativa de cargo eletivo ocorreu em 2018, quando disputou as primárias democratas para o governo de Michigan, sem obter a indicação do partido.
“um candidato ao Senado que, por acaso, é muçulmano”
Durante a campanha, a religião de El-Sayed tornou-se alvo de questionamentos e ataques. Em 25 de outubro, durante um comício em Michigan, Donald Trump chamou o candidato de “jihadista”, o que gerou críticas públicas. Em paralelo, o republicano Mike Rogers buscou associar o adversário à Irmandade Muçulmana, embora não haja evidências de vínculos entre El-Sayed e a organização. O próprio candidato rejeitou as acusações e classificou os questionamentos sobre sua lealdade aos Estados Unidos como vergonhosos.
El-Sayed ganhou visibilidade nas redes sociais e recebeu apoio do ex-presidente Barack Obama na reta final da disputa. Por outro lado, a campanha enfrentou resistência dentro do Partido Democrata, principalmente por suas críticas à atuação de Israel em Gaza e à influência de grupos pró-Israel na política americana.
Poucos dias antes da eleição, a deputada democrata Haley Stevens anunciou apoio ao republicano Mike Rogers, mudando a posição que havia sido declarada inicialmente após as primárias de agosto. Stevens afirmou que El-Sayed havia dito que ela não era mais bem-vinda em sua campanha; a mudança provocou reações entre lideranças democratas, e alguns membros da equipe de Stevens deixaram cargos em protesto. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, classificou a atitude como uma traição.
As divergências expuseram dificuldades do candidato para conquistar o apoio de diferentes segmentos do eleitorado de Michigan, especialmente nas comunidades negra e árabe-americana da região de Detroit. Membros da comunidade que criticaram as declarações de Trump incluíram Bishara Bahbah, ex-aliado do presidente, que considerou as falas racistas.
“mais focado em Gaza do que em Michigan”
Mike Rogers, ex-deputado federal que já havia concorrido ao Senado em 2024, tentou associar El-Sayed à esquerda socialista e explorar suas críticas ao apoio americano a Israel. Na reta final, o republicano buscou questionar as prioridades do adversário. Apesar desses ataques e da resistência em setores do próprio partido democrata, El-Sayed venceu Rogers por uma diferença de 5,6 pontos percentuais e garantiu a cadeira democrata em Michigan.
