Em 25 de outubro, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 51,8% a 48,2%. 17 dias antes do 1º turno, decreto elevou Bolsa Família 15%, custando R$5,8 bi em 2024 e R$22,7 bi em 2027, reacendendo o ciclo político de gastos e cortes.
Em 25 de outubro, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 51,8% a 48,2%. Dezessete dias antes daquele primeiro turno, um decreto elevou o Bolsa Família em 15%, ao custo de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027.
Essa combinação de números e datas abre a discussão sobre um padrão político observado no Brasil e em parte da América Latina: governos de esquerda ampliam gastos e programas sociais; quando as contas apertam, a direita assume para cortar; o ajuste é feito e a direita é responsabilizada politicamente; depois a esquerda retorna ao poder e o ciclo recomeça.
O padrão é simples e persistente. Houve tentativas de romper com ele, mas com resultados mistos. Michel Temer aprovou o teto de gastos em 2016 e deixou o cargo com aprovação reduzida. Mauricio Macri tentou um ajuste gradual na Argentina e perdeu a eleição de 2019 para a chapa composta por Cristina Kirchner. Em 2022, houve a elevação do Auxílio Brasil para R$ 600 por emenda constitucional, pouco antes da disputa eleitoral, sem reverter o resultado.
Há exceções que mostram caminhos diferentes. Javier Milei fez um ajuste severo e venceu as eleições legislativas de outubro de 2025 com cerca de 41% dos votos. No caso argentino, a política de cortes trouxe queda da inflação, mas também efeitos econômicos sentidos pela população.
O que explica a persistência do ciclo, segundo a análise, não é apenas a dinâmica eleitoral de curto prazo, mas o que acontece entre as eleições. A universidade pública brasileira deixou de ser apenas um espaço de ensino e pesquisa e passou a ocupar lugar de interesse organizado: orçamento a defender, carreiras a proteger e vínculo claro com partidos. A UNE, por exemplo, é presidida desde 1991 por quadros da União da Juventude Socialista, e no Andes-SN a disputa interna recente foi entre opções de alinhamento com centrais sindicais ligadas à esquerda.
Essa presença na formação de quadros — juízes, promotores, diplomatas, técnicos do Banco Central, jornalistas, professores — tem efeitos duradouros: quem forma essa elite influencia o país por décadas, muito além do ciclo eleitoral.
Para quem milita na direita, as respostas até agora são fragmentadas: organizações estudantis, institutos e iniciativas como RenovaBR ajudam a formar militantes e candidatos, mas dificilmente criam uma base de ocupação do Estado por gerações. Há exemplos no exterior: a Federalist Society, fundada em 1982 nos EUA, ajudou a consolidar quadros conservadores; no Chile, a Universidad del Desarrollo, criada em 1990, formou lideranças que chegaram a ministérios.
Uma estratégia sugerida pelo texto é apostar em pluralidade de instrumentos de longo prazo: bolsas de pós-graduação no exterior com compromisso de retorno, cátedras doadoras em universidades existentes, preparação para concursos das carreiras de Estado. Investir em formação custa menos que campanhas eleitorais repetidas e rende influência por décadas.
Por fim, o crescimento econômico aparece como condição para tornar cortes suportáveis: um cidadão com renda maior é menos sensível a um benefício temporário. Eleição se ganha na campanha; hegemonia política se constrói em décadas. Enquanto a direita não internalizar esse horizonte longo, seguirá sendo convocada, de tempos em tempos, para fazer a limpeza fiscal.
Por Gabriel Cepaluni, professor de ciência política da Unesp.
