Agonistas de GLP-1, como tirzepatida, promovem perda de gordura rápida; o glúteo pode encolher antes da pele se adaptar. Dermatologistas e clínicos explicam causas e soluções.
Depois do rosto, o corpo. O emagrecimento provocado por agonistas de GLP‑1, como tirzepatida e medicamentos equivalentes, devolveu saúde metabólica a milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, trouxe uma queixa cada vez mais ouvida por dermatologistas e clínicos: o glúteo que esvaziou mais rápido do que a pele conseguiu acompanhar. Na mídia, esse efeito já recebeu apelidos como “Ozempic butt” e, entre pacientes em uso de tirzepatida, a variação chamada de “bumbum Mounjaro”.
Não se trata de problema ligado a uma marca específica. O que acontece é consequência de perder volume rapidamente numa área cujo contorno depende de três componentes: coxins de gordura, massa muscular e pele com capacidade de retração. Quando o corpo reduz rapidamente a gordura, a projeção dos glúteos pode diminuir de forma desproporcional.
O glúteo não é só gordura. A projeção e a firmeza vêm dos músculos glúteo máximo, médio e mínimo e da camada de gordura subcutânea que recobre essa musculatura. As canetas reduzem o apetite e o consumo calórico; o organismo passa a queimar reservas de gordura, mas também perde massa magra. Na prática, a gordura glútea some sem possibilidade de escolher de onde; o músculo, se não for preservado por ingestão proteica adequada e treino de força, pode encolher e deixar a pele sem sustentação. A pele, por sua vez, nem sempre retrai na mesma velocidade, gerando glúteo mais baixo, mais plano, com pregas na transição com a coxa e sobra de pele.
Em levantamento publicado em 2026 na revista Dermatologic Surgery, clínicos de estética apontaram a flacidez corporal entre as mudanças mais associadas ao uso de GLP‑1, ao lado da perda de volume facial. A queixa sobre perda de volume glúteo apareceu em cerca de um terço das respostas.
Antes de recorrer a procedimentos estéticos, o alicerce é a proteção da massa magra: ingestão proteica adequada — em geral entre 1,6 g e 2,2 g por quilo de peso ajustado — e treino resistido focado nos glúteos reduzem a perda de músculo e, em muitos casos, recuperam parte do volume perdido. Sem essa base, intervenções na superfície podem corrigir o aspecto imediato, mas não o problema estrutural.
Quando a queixa é de qualidade da pele, sustentação e reposição moderada de volume, há duas famílias de produtos usadas em consultório: bioestimuladores de colágeno, que promovem ganho de densidade e firmeza de forma gradual, e ácido hialurônico corporal, que devolve projeção com resultado mais imediato. Essas abordagens podem ser combinadas em sessões espaçadas, dependendo do grau de flacidez, da espessura da pele e da massa muscular residual.
Importante: esses procedimentos não são lifting cirúrgico e não substituem a musculação. Em casos de flacidez leve a moderada, com expectativa realista, é possível suavizar pregas e recuperar projeção sem aspecto de implante. Perdas muito grandes de peso, com excesso de pele significativo, podem exigir avaliação cirúrgica. Prometer “bumbum de volta” com uma sessão é publicidade, não medicina.
Também merece atenção o PMMA (polimetilmetacrilato): sua aplicação continua a aparecer como atalho, mas o material não é biocompatível e está associado a granulomas e inflamações de difícil manejo, inclusive anos após a aplicação. O risco não justifica seu uso.
As canetas emagrecedoras representam avanço real para tratamento de diabetes e obesidade; a flacidez glútea não anula esse ganho. Emagrecer bem envolve, além da perda de peso, proteína adequada, treino de força e tempo para adaptação da pele. A dermatologia oferece tratamentos com bioestimulação de colágeno e ácido hialurônico corporal, feitos por profissionais treinados, com produtos biocompatíveis e indicação individual, cujo objetivo é devolver estrutura ao que o emagrecimento deixou para trás.
Dra. Ingrid Campos — CRM SP 185549 | RQE 99112
