A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, nesta quarta-feira, 7, os testes em humanos da Vivaxin, vacina 100% desenvolvida no Brasil contra a malária. O imunizante foi criado pelo CTVacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório Cristália.
A Vivaxin tem como alvo o Plasmodium vivax, espécie do parasita para a qual ainda não existe vacina disponível no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda atualmente duas vacinas contra a malária, RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M, que têm como alvo outra espécie, o P. falciparum.
O Relatório Mundial da Malária 2025, da OMS, apontou que o P. vivax causou cerca de 9,9 milhões de casos em 2024 e respondeu por 63,1% dos casos estimados de malária nas Américas naquele ano.
O estudo clínico autorizado é de fase 1 e avaliará a segurança da Vivaxin, as reações à aplicação e a capacidade de estimular resposta imunológica. Os resultados servirão de base para as próximas etapas da pesquisa, que deverão avaliar a proteção efetiva contra a doença.
Participarão 48 pessoas saudáveis, entre 18 e 59 anos, sem histórico de infecção por malária. Os voluntários receberão a vacina ou placebo em três aplicações, com intervalos de 28 dias entre elas. O acompanhamento está previsto para durar 360 dias, com avaliações clínicas e monitoramento dos participantes.
“Ela tem um impacto socioeconômico importante, porque a pessoa doente não pode trabalhar”, afirmou Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas.
A transmissão da malária ocorre principalmente pela picada de fêmeas infectadas do mosquito do gênero Anopheles. Febre, calafrios e dor de cabeça estão entre os sintomas mais comuns, que costumam atrapalhar a rotina das famílias e afastar trabalhadores das áreas de transmissão.
O Plasmodium vivax pode permanecer em forma dormente no fígado e provocar novos episódios de malária mesmo sem nova picada infectante. Para prevenir recaídas, o tratamento precisa atacar tanto a infecção no sangue quanto as formas latentes do parasita.
Embora o P. falciparum seja responsável pela maior parte dos casos graves, a malária vivax também pode provocar complicações e mortes. O Ministério da Saúde apontou riscos como anemia grave, problemas respiratórios e ruptura do baço, e destacou que diagnóstico e tratamento oportunos reduzem a gravidade.
O Brasil registrou 118 mil casos de malária contraídos no território nacional em 2025, segundo dados do ministério, com mais de 99% dessas infecções concentradas na região amazônica, onde há dificuldades de acesso ao diagnóstico, tratamento e prevenção.
“Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e, com isso, também contribuir com a eliminação da malária na América Latina”, avaliou Ricardo Gazzinelli, que também destacou o potencial da vacina para países asiáticos afetados pelo P. vivax.
O Plano Nacional de Eliminação da Malária tem a meta de interromper a transmissão local até 2035. Caso a Vivaxin demonstre segurança e eficácia nas etapas seguintes, ela poderá ampliar as estratégias de combate à doença, somando-se às ações de controle do mosquito, diagnóstico e tratamento.

