Municípios com prefeitos ou vice-prefeitos do Partido Liberal (PL) receberam mais de R$ 80 milhões em emendas parlamentares, segundo informações da Polícia Federal (PF) que apontam o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, como um dos responsáveis por essa destinação. Valdemar está sendo investigado por supostamente controlar e direcionar recursos do Orçamento da União.
A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou esses recursos alvo de investigação após a PF identificar que Valdemar teria influenciado a destinação das verbas mesmo sem ocupar um cargo parlamentar. O magistrado determinou o bloqueio dos bens do dirigente do PL até cerca de R$ 120 milhões, além de reproduzir na decisão a relação das emendas que estão sendo investigadas. Esta medida é cautelar, e até o momento, Valdemar não foi condenado, tendo sua defesa negado qualquer crime.
A maior quantia destinada a uma cidade administrada pelo PL foi para Suzano, em São Paulo, onde duas emendas da Comissão de Saúde de 2024 totalizaram quase R$ 27 milhões. Porto Seguro, na Bahia, recebeu aproximadamente R$ 25 milhões em indicações atribuídas a Valdemar, com a prefeitura sob a gestão de Jânio Natal, também filiado ao PL.
Além de Porto Seguro, outras seis cidades com prefeitos ou vice-prefeitos do PL aparecem na lista das emendas investigadas: Santa Fé do Sul, com R$ 9,5 milhões; Bebedouro, com R$ 9 milhões; Ubatuba, com R$ 7 milhões; Mogi das Cruzes, com R$ 3 milhões; Macedônia, com R$ 220 mil; e Ilha Solteira, também com R$ 220 mil. Exceto Porto Seguro, todas essas cidades estão localizadas em São Paulo, reduto eleitoral importante de Valdemar e sede nacional do PL.
A investigação da PF ainda identificou R$ 5,3 milhões destinados a três municípios que tiveram o PL como parte de suas coligações nas eleições de 2024. Morro do Chapéu, na Bahia, recebeu R$ 4,8 milhões, enquanto Presidente Venceslau e Guaimbê, em São Paulo, foram contemplados com R$ 220 mil e R$ 280 mil, respectivamente. No total, os recursos destinados a administrações do PL ou a chapas aliadas à legenda superam R$ 86 milhões, representando mais de 70% do total bloqueado por conta da decisão do STF.
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A relação entre Valdemar e os gestores beneficiados não implica, por si só, em ilegalidade na aplicação dos recursos. A suspeita investigada pela PF diz respeito à atuação de uma pessoa sem mandato parlamentar na escolha e controle das emendas, cuja indicação formal deve ser feita por membros ou órgãos do Congresso. Foram 21 emendas associadas a Valdemar, com 15 delas destinadas a municípios paulistas, totalizando 17 cidades em cinco estados.
A decisão de Dino reproduziu uma tabela baseada nas investigações da PF, que indicam que o presidente do PL teria interferido em emendas de comissão e da mesa diretora para direcionar verbas públicas. Parte das informações foi obtida em mensagens no celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, ex-assessora do então presidente da Câmara, Arthur Lira. As conversas sugerem que Tuca atuava na liberação de emendas relacionadas a Valdemar, embora sua presença na investigação não comprove envolvimento de Lira nas indicações atribuídas ao presidente do PL.
No mês de junho de 2026, o deputado federal Glauber Braga solicitou ao Supremo que investigasse informações sobre a continuidade da atuação de Tuca na liberação das emendas, apresentando uma denúncia que ainda aguardava apuração. A defesa de Valdemar manifestou surpresa com a decisão de Dino, considerando os fundamentos da medida frágeis e acusando-a de criminalizar a atividade político-partidária. “Valdemar Costa Neto nega categoricamente a prática de qualquer crime”, afirmou a defesa, destacando que não existem provas ou indícios de envolvimento em um suposto esquema criminoso.
Os advogados argumentam que presidentes partidários mantêm diálogos com parlamentares, apresentam prioridades da legenda e influenciam politicamente as bancadas. Valdemar reconheceu que faz sugestões sobre a destinação de verbas, mas afirmou que essa atuação é parte do trabalho político. Até a publicação desta reportagem, as prefeituras citadas não se manifestaram sobre o assunto.


