Relatos de gestores, ex-gestores hospitalares, parlamentares, funcionários de órgãos de controle e servidores públicos apontam que o senador Flávio Bolsonaro exerceu forte influência sobre os seis hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022. O período coincide com os anos mais críticos da pandemia de Covid-19 e, segundo os depoimentos e documentos, trouxe problemas operacionais e financeiros que afetaram a assistência à população.
Em março de 2026, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), um pastor evangélico de direita, afirmou publicamente que o senador liderou um esquema de corrupção nos hospitais federais do Rio.
“Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”
Dois meses depois, em maio de 2026, o então ministro da Saúde usou expressão contundente ao tratar do assunto durante inauguração de um centro na Fiocruz e repetiu a avaliação em entrevista em setembro.
“Era, de fato, o poderoso chefão dos hospitais federais. Passava por ele a indicação de quem seria diretor e todas as decisões relacionadas a hospitais e contratos. Ele montou um esquema de rachadinha política com a ocupação dos cargos e provocou um desmonte. Todos os contratos de terceirizados tinham funcionários fantasmas. Um contrato de limpeza falava em 200 postos de trabalho, quando a gente olhou só havia 50 pessoas trabalhando”
Documentos e depoimentos citam um orçamento superior a R$ 3 bilhões para o conjunto dos quatro anos analisados, período em que o país enfrentou a pandemia. Esses materiais mostram que a precariedade no funcionamento das unidades convivia com contratos caros e concentração de gastos em custeio, controlados por administradores locais que, segundo o material, seriam indicados por um grupo político ligado ao senador.
O relatório final da CPI da Covid dedica um capítulo ao Rio de Janeiro e conclui que 30% dos leitos clínicos e de UTI nos hospitais e institutos federais da capital estavam e permaneceram fechados durante a pandemia, embora pudessem ter sido disponibilizados. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados nos hospitais federais do Rio; a Medida Provisória nº 1.022, de 31 de dezembro de 2020, prorrogou apenas 1,4 mil contratos por sessenta dias.
O Estado do Rio de Janeiro registrou mais de 2,8 milhões de casos confirmados de Covid e 77.166 mortes, sendo que 38,8 mil dessas mortes ocorreram na capital.
Hospitais federais citados
- Hospital do Andaraí
- Hospital Geral de Bonsucesso
- Hospital Cardoso Fontes
- Hospital de Ipanema
- Hospital da Lagoa
- Hospital dos Servidores
Vistorias e investigações encontraram problemas específicos nas unidades: no Bonsucesso, um incêndio iniciado no almoxarifado matou quatro pacientes internados com Covid-19; a emergência estava fechada por falta de pessoal, 126 dos 411 leitos estavam impedidos e serviços como diálise e cardiologia foram interrompidos. No Andaraí, a falta de médicos atrasava procedimentos e até o registro de óbitos chegava a demorar duas horas; a cozinha inacabada obrigava gastos estimados em R$ 1,6 milhão por mês para transporte de alimentação. No Cardoso Fontes, relatos apontam pacientes em pé e em macas improvisadas nos corredores, e há registro de ocupação de terreno por milícia para cobrança de estacionamento, segundo inquérito policial.
Em abril de 2023, a pedido do deputado e médico sanitarista Daniel Soranz (PSD-RJ), a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara visitou a rede federal do Rio e encontrou 735 leitos inoperantes ou bloqueados, andares vazios, alas trancadas e equipamentos sem uso.
“É ainda mais grave que isso tudo tenha ocorrido durante a pandemia”
“Flávio [Bolsonaro] teve uma influência nefasta para os hospitais federais, foi algo terrível”
Um diagnóstico de 235 páginas elaborado pelo Ministério da Saúde em fevereiro de 2023 indicou que 72% dos recursos dos seis hospitais — o equivalente a R$ 50,3 milhões por mês — eram consumidos por custeio, incluindo contratos de limpeza, vigilância e rouparia. Em pelo menos uma unidade, contratos de apoio administrativo apresentaram margens de lucro apontadas na documentação como chegando a 561%.
As informações reunidas compõem quadro usado por parlamentares e órgãos de controle para questionar a gestão das unidades federais no Rio durante os anos da pandemia e para embasar apurações sobre indicações políticas, contratos e condições de atendimento.






