Um convite para uma trilha de quatro dias virou mais bagagem do que prazer: voo de 3h30 e cinco horas de estrada. Pequenas escolhas do dia a dia podem exigir esforço demais — e merecem um 'não'.
Outro dia uma amiga me convidou para fazer uma trilha de quatro dias, acampando perto de cachoeiras. Pra chegar ao ponto de partida, eram três horas e meia de voo mais cinco horas de estrada de terra. Tentei segurar, mas acabei soltando:
“Amiga… Pra que?”
O episódio virou uma reflexão sobre escolhas simples do dia a dia que, muitas vezes, exigem mais esforço do que alegria. Um casal de conhecidos comprou o título de um clube muito bem equipado, segundo me contaram, pertinho do autódromo. Para quem não está em Mônaco, “perto do autódromo” quer dizer longe mesmo. Eles listaram os atrativos: muito verde, quadra de Beach Tennis, pista de hipismo, e até servem coquetel de camarão. Me convidaram para almoçar lá e, na hora, veio a mesma pergunta: pra que?
Redes sociais também alimentam essa sensação. O Instagram recomenda colegas de escola e, às vezes, bate aquela curiosidade — por onde andará fulano? recupero a vontade de escrever, mandar mensagem, retomar contato. Mas logo vem a reflexão: pra que? A pergunta não é sobre indiferença, é sobre custo emocional e tempo.
Surgem convites culturais: ouvi falar de uma exposição interativa no centro da cidade que parece interessante. É só pegar o metrô, descer na Praça da Sé e caminhar três quarteirões até o museu. Nada contra cultura, mas a pergunta volta.
E os mega shows? Não é que eu não goste, mas pensar em demorar 30 minutos para andar 1 km até o estádio, pagar cerca de R$ 90 para um estacionamento ruim, ficar espremido entre pessoas para ver um artista pequeno no palco e um gigante no telão faz repensar a saída. Se o show for na praia de Copacabana, o ingresso já parece vir com um aviso tácito: pra que?
Casamentos fora da cidade viraram outro capítulo. Exemplos: São Roque, Ilhabela, Trancoso — e até convite para a Itália. São festas bonitas, claro, mas quando o deslocamento exige tanta logística e gasto que a cerimônia pode durar meses e você ainda está pagando a passagem, a pergunta reaparece.
O ponto não é comodismo. Adoro sair de casa, ver amigos e aproveitar a vida. Com o tempo aprendi a avaliar: este programa vai me dar mais trabalho do que alegria? Alguém vai morrer se eu ficar em casa vendo Netflix? Pode ser que esta crônica tenha trazido mais alegria do que trabalho. Ou você se deu ao trabalho de chegar até o fim e está se perguntando agora: pra que?
Nem ideia.
