Nos arquivos do Itamaraty chefiado por Mauro Vieira, documentos têm sido rotineiramente carimbados como 'reservado' ou 'secreto' por cinco a quinze anos. O uso repetido de sigilo com justificativas genéricas preocupa e dificulta a fiscalização e a transparência.
Em um texto que começa com uma referência literária, a ausência de reações sonoras — como o cão que não latiu em Silver Blaze — é usada como metáfora para o que está escondido nos arquivos do Itamaraty chefiado por Mauro Vieira. O ponto central do texto é o amplo uso de sigilo: documentos carimbados como reservado ou secreto, com prazos que vão de cinco a quinze anos, e justificativas gerais repetidas em vários casos.
O artigo lembra que o sigilo é instrumento legítimo da diplomacia, necessário para negociações sensíveis. Mas alerta que o problema surge quando a exceção se torna regra, dificultando distinguir o que protege o interesse permanente do Estado do que protege conveniências do governo em exercício. Nesse limiar, diz o texto, a diplomacia deixa de proteger o País e pode passar a proteger o governo do escrutínio interno.
No episódio mais recente citado, na terça-feira, 22 de setembro, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, 14 governos da América Latina e do Caribe assinaram com os Estados Unidos, no âmbito do Escudo das Américas, uma declaração que incluiu o PCC e o Comando Vermelho numa lista de 24 organizações “narcoterroristas” sujeitas a congelamento de bens, restrições de visto e responsabilização criminal de quem lhes prestasse apoio material ou logístico. Ficaram de fora o Brasil e o México. Relatos publicaram que nem o Planalto nem o Itamaraty sabiam que as duas facções brasileiras constariam do documento.
Países signatários
- Argentina
- Bolívia
- Chile
- Colômbia
- Costa Rica
- República Dominicana
- Equador
- El Salvador
- Guiana
- Honduras
- Panamá
- Paraguai
- Peru
- Trinidad e Tobago
O texto registra que o presidente deixou a sede da ONU por volta das 11h30 e que a reunião começou pouco depois das 14h, destacando que duas horas e meia separaram a ausência do Brasil da decisão regional. Em discurso à Assembleia Geral, o presidente proclamou:
“o Brasil não cabe no quintal de ninguém”
Dias antes, no Rio de Janeiro, o presidente manifestara posição contrária à classificação das facções como terroristas. Auxiliares do Planalto passaram a interpretar a declaração como prenúncio de pressões sobre minerais críticos e terras raras.
O texto ressalta que a designação de PCC e CV pelos Estados Unidos já estava em vigor desde 5 de junho, com efeitos essencialmente financeiros, migratórios e penais. Lembra também que, em ofício enviado à Câmara em 1º de julho, o chefe do Itamaraty aventou o “risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”. O Departamento de Estado qualificou essa hipótese como absurda e observou que as designações não contemplam ação militar.
“risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”
O autor pergunta quais informações embasaram essa avaliação e observa que parte dos estudos correlatos permanece sob sigilo. Em seguida, relaciona a resistência oficial a designações externas com interesses que atravessam economia formal e investigação criminal. Cita a Operação Carbono Oculto, de agosto de 2025, que expôs infiltração do PCC no setor de combustíveis e em fintechs que, segundo autoridades, movimentaram dezenas de bilhões de reais e tiveram ramificações na Faria Lima.
O texto conclui apontando que a resistência às designações integra um padrão de opacidade do governo atual, que converge para temas onde transparência, política externa, interesses econômicos e conveniência política se cruzam. Também lembra que, em fevereiro de 2025, o Itamaraty impusera sigilo de cinco anos a telegramas da Embaixada em Caracas sobre a J&F e a JBS.
