O Brasil atravessa um momento que exige atenção. Grandes empresas recorrem à recuperação judicial ou extrajudicial, o crédito está mais caro e seletivo, empresários encontram dificuldades crescentes para financiar operações e uma parcela da população reduz o consumo porque já não consegue assumir novas prestações. O problema, portanto, deixou de ser apenas empresarial e começa a atingir toda a cadeia econômica.
O recente pedido de recuperação judicial das Casas Bahia é um exemplo emblemático. A companhia chegou à Justiça com aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas à recuperação judicial, enquanto seu endividamento total se aproxima de R$ 28 bilhões. O grupo também anunciou o fechamento de centenas de lojas e a redução de sua estrutura. Mais relevante do que os números do balanço é a quantidade de empresas e pessoas que dependem dessa cadeia.
Uma grande rede varejista não compra apenas produtos: ela movimenta fabricantes, distribuidores, transportadoras, empresas de tecnologia, prestadores de serviços, proprietários de imóveis e milhares de trabalhadores. Quando uma companhia desse porte deixa de pagar ou precisa alongar seus compromissos, o fornecedor muitas vezes passa a financiar involuntariamente a crise. Entregou a mercadoria, pagou empregados, comprou matéria-prima e cumpriu suas obrigações, mas não recebeu no prazo. Sem caixa ou acesso a crédito, sua própria sobrevivência passa a ser ameaçada.
O efeito dominó obriga a olhar para além da empresa em recuperação. O Grupo Gennius, controlador de marcas como Habib’s e Ragazzo, ingressou em recuperação judicial com dívida superior a R$ 265 milhões. O Grupo Toky, que reúne Tok&Stok e Mobly, enfrenta dívidas superiores a R$ 1 bilhão. A Marabraz recorreu à recuperação judicial com passivo estimado em aproximadamente R$ 140 milhões. Na indústria petroquímica, a Braskem iniciou uma recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas. Em outro setor, a Oi voltou a enfrentar uma situação extrema depois de processos de recuperação que envolveram dezenas de bilhões de reais.
Nem todas as empresas chegaram a essa situação pelas mesmas razões: há problemas de gestão, decisões empresariais equivocadas, excesso de endividamento, mudanças tecnológicas e transformações no comportamento do consumidor. Não se pode ignorar, porém, o ambiente financeiro em que essas companhias operam: juros elevados, crédito mais caro, maior seletividade dos bancos e consumidores com menor capacidade de assumir novas dívidas.
A taxa Selic, atualmente em 14% ao ano, não é apenas uma referência do mercado financeiro: ela chega à economia real. Para uma empresa, significa pagar mais caro pelo capital de giro, pelo financiamento de estoques, pela antecipação de recebíveis e por novos investimentos. Para o consumidor, representa prestações maiores e menor capacidade de compra. Para famílias de menor renda, juros elevados podem significar simplesmente não comprar.
Quando o consumidor compra menos, o varejista vende menos; vendendo menos, reduz os pedidos à indústria; a indústria reduz a produção e suas compras de fornecedores; a transportadora recebe menos pedidos; o prestador de serviços perde contratos; o trabalhador sente os efeitos na renda e no emprego. O Monitor RGF-Bizdoc registrou 6.341 empresas em recuperação judicial ao final de junho de 2026, o maior nível da série iniciada em 2023, o que indica que as dificuldades atingem também companhias menores, com menos capital para enfrentar atrasos de clientes.
Recuperação judicial não deve servir para proteger empresas inviáveis nem para transferir indefinidamente prejuízos a fornecedores, bancos e trabalhadores. Deve ser um instrumento para preservar empresas viáveis e evitar que quebras destruam valor em toda a cadeia. O risco a evitar é uma sequência de recuperações que fragilize cada vez mais empresas por falta de pagamento, crédito caro e redução do consumo. O país precisa de estabilidade monetária e controle da inflação, mas também precisa de crédito para produzir, investir e consumir.
