Fumar é a principal causa evitável do câncer de bexiga e aumenta muito o risco de tumores no órgão. Homens respondem por cerca de 70% dos casos; cessar o tabaco e diagnosticar cedo salvam vidas.
O câncer de bexiga continua recebendo pouca atenção, embora seja relevante para a saúde pública. A doença se desenvolve, na maioria dos casos, nas células que revestem a parte interna do órgão e está entre os tumores mais incidentes nos homens no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), cerca de 70% dos diagnósticos ocorrem em população masculina. Entre os homens, a doença corresponde a 3 a 3,5% dos casos de câncer no país, excluindo os tumores de pele não melanoma. Apesar de ser mais frequente no público masculino, o câncer de bexiga não deve ser tratado apenas como um câncer masculino.
Um dos principais fatores de risco é o tabagismo, associação ainda pouco conhecida entre a população. Quando se fala nos prejuízos do cigarro, o câncer de pulmão costuma ser o primeiro a ser lembrado, mas as substâncias da fumaça são absorvidas e chegam à circulação sanguínea. Essas substâncias são eliminadas pelos rins na urina e, ao permanecerem em contato com o revestimento da bexiga, podem contribuir para alterações celulares relacionadas ao desenvolvimento do tumor.
Uma pesquisa inédita realizada pelo Ipsos-Ipec, encomendada pelo Instituto Oncoguia e pela Pfizer, mostra a dimensão dessa lacuna: 40% da população não sabe que o tabagismo está associado ao câncer de bexiga. Esse número ressalta a necessidade de ampliar a conversa sobre os impactos do cigarro além dos órgãos mais frequentemente lembrados.
Levar essa informação ao público também significa falar de prevenção. De acordo com o INCA, depois de alguns anos sem fumar, o risco de câncer de bexiga pode cair pela metade em comparação com quem continua fumando. Parar de fumar é uma decisão que traz benefícios em múltiplas frentes da saúde e deve ser apoiada com orientação e acompanhamento profissional.
O desconhecimento não se restringe aos fatores de risco. A pesquisa indica que 81% das pessoas com 60 anos ou mais desconhecem o câncer de bexiga ou apenas ouviram falar sobre a doença. Isso preocupa porque a idade acima de 55 anos está entre os fatores associados à maior incidência. Justamente entre quem está mais exposto à doença, falta informação para reconhecer riscos e sinais de alerta.
Um dos sinais que exige atenção é a presença de sangue na urina, chamada hematúria. Embora a hematúria possa estar associada a diferentes condições e nem sempre signifique câncer, esse sintoma está entre os primeiros do câncer de bexiga e precisa ser investigado. Ainda assim, apenas 57% dos homens entrevistados associam esse sintoma à doença, e entre as pessoas com 60 anos ou mais, 32% não reconhecem a hematúria como possível sinal de alerta.
Os resultados apontam para um contraste importante: 88% dos participantes entendem que o diagnóstico precoce aumenta as chances de sucesso do tratamento, mas uma parcela expressiva da população não identifica um dos principais sinais da doença. Conhecer a importância do diagnóstico em fase inicial não basta se as alterações que devem levar à procura por atendimento continuam desconhecidas ou são naturalizadas.
Atualmente, não há recomendação de rastreamento populacional para pessoas sem sintomas, pois as evidências disponíveis não mostram que essa estratégia ofereça mais benefícios do que riscos. Nesse contexto, conhecer o próprio corpo e buscar avaliação médica diante de sangue na urina ou outras alterações persistentes é fundamental para que as causas sejam investigadas adequadamente.
Tornar o câncer de bexiga mais conhecido exige uma conversa que conecte prevenção, fatores de risco e reconhecimento dos sintomas. Explicar a relação com o tabagismo e ajudar a população a identificar sinais de alerta transforma informação em ferramenta para escolhas mais conscientes e busca oportuna por cuidado.
Camilla Gaspari – CRM/SP: 140.186 | RQE: 59194 Diretora Médica de Oncologia da Pfizer
