A relação entre Estados Unidos e Israel vai muito além das mudanças de governo. Atualmente, a colaboração entre o governo de Donald Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta um momento delicado. Essa situação pode surpreender, considerando a recepção calorosa que Trump teve no Knesset, em Jerusalém, após o acordo que resultou na libertação de todos os reféns em 2025. Durante esse período, os elogios mútuos entre os líderes foram frequentes, mas essa harmonia durou pouco, pois Trump começou a criticar Israel em relação à sua política sobre o Hezbollah e as negociações com o Irã.
Distanciamentos na relação entre os dois países não são novos. Durante a administração de Richard Nixon, por exemplo, a então primeira-ministra Golda Meir teve dificuldades em conseguir o apoio desejado durante a Guerra do Yom Kipur, que ocorreu em 1973. Mais tarde, em 1982, a invasão do Líbano levou a um desentendimento entre o governo de Ronald Reagan e o de Menachem Begin, que contava com Ariel Sharon como seu ministro da Defesa. Na década de 1990, George H. W. Bush pressionou o governo de Yitzhak Shamir devido à expansão de assentamentos, e em 2015, Netanyahu discursou no Congresso dos EUA contra o acordo nuclear negociado por Barack Obama com o Irã, evidenciando as diferenças entre os dois governos.
Apesar dessas tensões políticas, a relação entre os dois países se fortaleceu ao longo do tempo. Desde a chegada dos primeiros judeus à colônia de New Amsterdam, atual Nova York, em 1654, oriundos de Recife, essa conexão foi se solidificando. Asser Levy, um dos primeiros a chegar, lutou pelos direitos civis em uma colônia que inicialmente impunha restrições aos judeus. O governador Peter Stuyvesant tentou impedir a permanência dos judeus, mas a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais forçou a aceitação, embora com limitações e impostos adicionais.
A atuação de Levy foi crucial para a defesa legal da comunidade judaica. Ele entrou com petições contra medidas discriminatórias, como a obrigação de pagar taxa militar sem o direito de participar da milícia. Em 1655, Levy conseguiu, após recorrer às autoridades superiores na Holanda, o direito de ser tratado como os demais cidadãos.
Com o passar dos anos, a comunidade judaica nos EUA foi se integrando, levando à formação do American Jewish Committee (AJC) em 1906, uma das mais tradicionais organizações de direitos civis e defesa dos interesses judaicos. O AJC atua em pautas amplas de direitos civis, liberdade religiosa e combate ao discurso de ódio. No campo político, o AIPAC (American Zionist Committee for Public Affairs), fundado em 1963, tornou-se o principal representante de Israel nos EUA, defendendo os interesses israelenses junto ao Congresso.
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Nas eleições de 2024, o AIPAC apoiou formalmente 361 candidatos à Câmara dos Representantes e ao Senado, com 326 deles sendo eleitos. Isso representa uma taxa de sucesso de mais de 90% para os candidatos endossados pela organização. O apoio do AIPAC é abrangente, alcançando tanto democratas quanto republicanos, e, em cada ciclo eleitoral, entre 320 e 360 parlamentares recebem contribuições da entidade ou de entidades relacionadas.
Para as eleições de meio de mandato de 2026, grupos favoráveis a Israel iniciaram a disputa com mais de US$ 100 milhões destinados a campanhas políticas, com o objetivo de apoiar candidatos que defendam a relação entre Washington e Jerusalém, além de financiar campanhas contra adversários críticos a essa parceria.
A influência da relação entre os dois países também se reflete em decisões concretas do Congresso. Em 2016, durante o governo Obama, os EUA e Israel assinaram um memorando de entendimento que prevê US$ 38 bilhões em assistência militar ao longo de dez anos, o maior compromisso de ajuda militar já firmado pelos EUA com outro país. Esses recursos ajudam a financiar programas conjuntos de defesa, como o Iron Dome, um sistema de interceptação de foguetes utilizado por Israel.
Além da assistência militar, a cooperação entre os dois países também envolve áreas como inteligência, defesa antimísseis, segurança cibernética e desenvolvimento de tecnologias militares. Enquanto presidentes dos EUA e primeiros-ministros de Israel discutem estratégias para guerras e questões diplomáticas, essa cooperação se mantém ativa por meio de acordos e programas já estabelecidos. Desde o início da guerra contra o Hamas, a atuação do AIPAC se intensificou, refletindo a importância e a complexidade da relação entre os dois países.
