UFJF e UFMG pedem desculpas por uso de cadáveres de manicômios em notas públicas que reconhecem a conivência das instituições com a violência sofrida por pacientes psiquiátricos cujos corpos foram destinados a aulas de anatomia até a década de 1970.
UFJF e UFMG pedem desculpas por uso de cadáveres de manicômios
A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou, em 18 de maio, carta aberta na qual admite participação “em um dos momentos mais sensíveis da saúde pública brasileira”. O texto afirma que, durante o século XX, pessoas rotuladas como “loucas” foram confinadas, submetidas a condições mínimas de sobrevivência e, após a morte, tiveram seus corpos usados em salas de aula sem consentimento familiar.
Segundo registros históricos, o Instituto de Ciências Biológicas da UFJF recebeu 169 cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena entre 1962 e 1971. O hospital mineiro é citado no livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, que contabiliza mais de 60 mil mortes em suas dependências e a venda de 1.853 corpos para 17 instituições de ensino da saúde.
Como forma de reparação simbólica, a UFJF promete:
- promover ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental;
- criar um memorial que preserve a memória das vítimas;
- realizar pesquisas documentais sobre a relação da universidade com o antigo manicômio.
Desde 2010, a instituição opera o Programa de Doação Voluntária de Corpos Sempre Vivo, garantindo que todos os corpos atualmente utilizados em aulas de anatomia sejam provenientes de doações consentidas, em conformidade com a legislação.
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) já havia formalizado pedido de desculpas no mês anterior, igualmente motivada por vínculos históricos com o Hospital Colônia de Barbacena. A universidade reconheceu a responsabilidade pelas atrocidades e anunciou:
- parcerias com movimentos da luta antimanicomial para ações de memória;
- restauração do livro de registro de cadáveres;
- inclusão do tema em disciplinas de anatomia.
Desde 1999, a UFMG mantém um programa de doação de corpos baseado em consentimento livre e informado, alinhado a padrões legais e éticos internacionais.
Especialistas em saúde mental destacam que esses pedidos de desculpas reforçam o compromisso com práticas acadêmicas éticas e com a desconstrução do estigma sobre transtornos mentais. Para o historiador Fernando Motta, ouvido pela Agência Brasil, reconhecer erros do passado é “passo essencial para garantir que violações semelhantes não se repitam”.
A demanda por memória também ecoa em iniciativas culturais. Obras como O Alienista, de Machado de Assis, e o acervo do Museu Imagens do Inconsciente evidenciam como arte e literatura contribuem para questionar modelos excludentes de tratamento psiquiátrico.
Esses gestos de retratação ocorrem em meio a debates sobre políticas de saúde mental no Brasil, movimentados por profissionais, familiares e usuários dos serviços que defendem modelos humanizados e a extinção de práticas manicomiais.
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Crédito da imagem: Arquivo Público Mineiro
Fonte: Agência Brasil
