Venezuelanos no Brasil lamentam crise política e humanitária
Venezuelanos no Brasil descrevem, com pesar, o agravamento da crise econômica, social e política em seu país de origem, cenário que se aprofundou após a intervenção militar dos Estados Unidos e a prisão de Nicolás Maduro.
Trajetórias marcadas pela crise
O produtor audiovisual Benjamin Mast, de 44 anos, chegou a Roraima em 2016, período em que a migração venezuelana ainda era pontual. Ele viu na falta de oportunidades em Caracas o impulso para abrir uma produtora no Brasil, onde trabalha ao lado da esposa. “Em 2014 já não havia projetos no setor cultural; vir foi a decisão mais segura”, contou.
Mast, no entanto, acompanha com apreensão o futuro da Venezuela. Para ele, a combinação de má gestão econômica e sanções internacionais “transformou o país em terreno fértil para intervenção estrangeira”. Segundo o produtor, a imagem de bombas lançadas sobre cidades venezuelanas e a divisão interna da sociedade agravam a sensação de perda de soberania.
Medo de intervenção estrangeira
Contrária à ação norte-americana, Mast teme que a Venezuela se torne “colônia de interesses petrolíferos”. Ele lembra que a história latino-americana revela pouco avanço social sob administrações externas. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) apontam que mais de 6 milhões de venezuelanos já deixaram o país desde 2015, reflexo direto da instabilidade.
Academia e exílio
A professora Livia Esmeralda Vargas González também desembarcou no Brasil em 2016, impulsionada por bolsas de doutorado em História e Filosofia. Hoje docente da Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, ela relata a “dor constante” de acompanhar a família que permanece em território venezuelano, onde há falta de energia e alimentos.
Para Livia, a invasão dos EUA representa “recolonização sem precedentes” e reforça traumas históricos. A educadora teme o vácuo de poder e a escalada de violência: “Minha família não sabe se haverá bombardeios novamente”.
Recomeço pela culinária
A técnica em informática Maria Elias cruzou a fronteira em 2015 com o marido e dois filhos após perder o sustento em Güigüe, estado de Carabobo. No Rio de Janeiro, encontrou desafios de idioma e mercado de trabalho, mas reinventou-se na gastronomia. Começou com pratos libaneses, agregou culinária mediterrânea e hoje atende eventos residenciais.
Mesmo satisfeita com a decisão, Maria acompanha a situação política em Caracas com cautela. “É preciso esperança em eleições limpas, mas ninguém sabe quando acontecerão”, afirma.
Os relatos convergem em três sentimentos: preocupação com o vazio de poder, repúdio à intervenção externa e desejo de reconstrução nacional. Enquanto isso, no Brasil, esses migrantes buscam estabilidade, mas carregam a incerteza sobre o destino da Venezuela.
Para mais reportagens sobre migração e política internacional, visite nossa editoria Internacional do Giro pela Bahia e continue informado.
Crédito da imagem: Acnur/Reynesson Damasceno
Fonte: Agência Brasil
