Em Limeira, pesquisa da Unicamp resultou, por acaso, em um corante natural azul-verde a partir de composto do café verde e leite de amêndoa. O achado, de Monique Strieder, já teve pedido de patente.
Uma pesquisa feita na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no campus de Limeira, resultou no desenvolvimento de um corante natural de tom verde-azulado a partir da combinação de um composto do café verde com leite vegetal de amêndoa. O resultado, segundo o grupo de pesquisa coordenado pelo professor Mauricio Ariel Rostagno, surgiu de forma acidental durante um estágio de pós-doutorado e já teve pedido de patente depositado com o apoio da agência de inovação da universidade.
A descoberta ocorreu quando a engenheira de alimentos Monique Martins Strieder investigava, em seu pós-doutorado, a estabilidade do ácido clorogênico — um composto fenólico presente no café verde e na erva-mate — ao ser aplicado em leite vegetal. Após sete dias de testes, a solução mudou de cor e chamou a atenção da equipe.
“Eu vi uma bebida azul e pensei: que estranho, o que é isso?”
A explicação química apontada pelos pesquisadores é que o leite de amêndoa apresenta uma leve alcalinidade (pH de 7,88), faixa na qual os compostos fenólicos do café verde ou da erva-mate sofrem oxidação e reagem com proteínas vegetais da amêndoa. A reação forma uma nova classe de compostos — as tri-hidroxibenzacridinas — responsáveis pela coloração verde-azulada. A equipe ressalta que esses compostos não se encontram diretamente na natureza e que a formação exige uma extração seletiva, funcionando apenas com a mistura específica identificada pelos pesquisadores.
“O interessante dessa tecnologia é que ela surgiu de uma casualidade: a gente não esperava que se formasse essa cor, porque o objetivo era enriquecer o leite de amêndoas com o ácido clorogênico.”
Um dos diferenciais apontados é a estabilidade do corante em pH próximo do neutro. Em testes, a coloração resistiu a tratamento térmico de 80°C por três minutos e suportou a transformação em pó por liofilização sem perda significativa da cor. A intensidade cromática aumentou nas primeiras 24 horas de reação e depois se estabilizou. Em aplicações, o corante manteve melhor estabilidade no leite; apresentou ligeira mudança de tom no iogurte, provavelmente pela acidez; e formou cor em água, embora o pó tenha mostrado dificuldade para dissolução completa.
Para contornar problemas de solubilidade e ampliar possibilidades de uso, a equipe vai empregar técnicas como microencapsulação e nanoemulsão e pretende ampliar testes em outros alimentos. A tecnologia dispensa metais e etapas complexas de purificação, o que pode reduzir custos em comparação com alternativas comerciais, como a ficocianina extraída da espirulina.
“Vejo como grande vantagem desse novo processo o uso do café verde, que é produzido em escala mundial, e da bebida de amêndoa, que também não teria dificuldade nenhuma de ser produzida em qualquer lugar.”
O pedido de patente foi protocolado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) com estratégia da agência de inovação da universidade. A equipe indica que a nova composição tem potencial de aplicação não apenas na indústria alimentícia, mas também nos setores farmacêutico e cosmético, onde há demanda por ingredientes vegetais e rotulagem sem aditivos artificiais. A busca por corantes azuis naturais é hoje um desafio tecnológico global, impulsionado pela pressão para reduzir o uso de corantes sintéticos como o azul brilhante FCF, associados em estudos a riscos à saúde, especialmente entre crianças.

