Tratamento gratuito da lobomicose já alcança 104 moradores da Região Norte, oferecendo exames, medicação e cirurgias sem custo para combater a doença de Jorge Lobo, micose endêmica que causa lesões dolorosas e estigmatizantes.
Projeto Aptra Lobo integra atendimento e pesquisa clínica
Implementado no final de abril de 2026, o projeto Aptra Lobo reúne o Ministério da Saúde, a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente e o Einstein Hospital Israelita. A iniciativa leva diagnóstico, acompanhamento e tratamento gratuito a pacientes do Acre, Amazonas e Rondônia, estados que concentram os registros da lobomicose.
De acordo com dados oficiais, 907 casos da doença foram notificados no país; 496 ocorreram no Acre, onde vive o seringueiro Augusto Bezerra da Silva, de 65 anos. Após duas décadas com lesões que o afastaram da família e do trabalho, ele relata melhora expressiva depois de aderir ao protocolo terapêutico baseado no antifúngico itraconazol, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
Resultados apontam redução de lesões em mais de 50% dos casos
O itraconazol, administrado em doses ajustadas para cada paciente, reduziu as manifestações cutâneas em mais da metade dos participantes. Em áreas remotas, equipes multiprofissionais realizam biópsias e exames laboratoriais no próprio território, além de expedições periódicas que garantem transporte e assistência a comunidades ribeirinhas.
Segundo o infectologista e patologista clínico João Nóbriga de Almeida Júnior, responsável técnico pelo estudo, o principal desafio continua sendo o difícil acesso geográfico que prolonga o intervalo entre as reavaliações trimestrais. “A barreira logística é enorme, mas a parceria com centros de referência em Rio Branco, Manaus e Porto Velho tem garantido continuidade ao cuidado”, afirmou.
Manual inédito e novos protocolos para o SUS
Em dezembro passado, o grupo lançou o primeiro manual nacional sobre diagnóstico e conduta frente à lobomicose. O documento serve de base para a elaboração de um PCDT mais abrangente, cuja publicação está prevista para 2026. A padronização permitirá que unidades básicas identifiquem precocemente a infecção fúngica e encaminhem casos complexos a serviços especializados.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a doença entre as infecções de pele negligenciadas, alertando para o impacto psicossocial nas populações afetadas. As lesões nodulares, semelhantes a queloides, provocam dor, coceira e, muitas vezes, levam as vítimas ao isolamento social por vergonha da aparência.
História de superação reacende esperança
Ao lembrar os anos de reclusão, Augusto Bezerra conta que evitava até mesmo a própria família. “Hoje me sinto mais livre; os caroços diminuíram e voltei a conviver com as pessoas”, diz. Ainda que a cura completa não seja imediata, ele destaca a importância do acompanhamento contínuo proporcionado pelo tratamento gratuito.
Para Almeida Júnior, o próximo passo é garantir financiamento e capacitar profissionais em toda a Amazônia Ocidental. “Queremos que a Doença de Jorge Lobo deixe de ser negligenciada e que os pacientes recebam cuidado integral perto de casa”, concluiu.
No combate às doenças negligenciadas, iniciativas como o Aptra Lobo evidenciam o papel do SUS na redução de desigualdades, fortalecendo a vigilância epidemiológica e ampliando o acesso a terapias eficazes.
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Crédito da imagem: Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil
