Protestos na Bolívia pressionam Rodrigo Paz a renunciar
Protestos na Bolívia pressionam Rodrigo Paz a renunciar depois de quase um mês de bloqueios que interrompem o acesso a La Paz e expõem a fragilidade do governo instalado há apenas seis meses.
Lei 1.720 desencadeia revolta popular
A origem da tensão foi a promulgação, em 10 de abril, da Lei 1.720, aprovada em março pelo Parlamento. O texto permite que pequenas propriedades rurais sejam convertidas em médias, abrindo caminho para obtenção de crédito. Enquanto entidades empresariais elogiaram a medida como estímulo à agricultura e à recuperação econômica, movimentos indígenas e campesinos alertaram para o risco de perda de territórios coletivos e avanço da especulação imobiliária.
Para a pesquisadora Alina Ribeiro, da USP, a principal preocupação é a “desintegração das terras comunais trabalhadas coletivamente”, cenário que pode agravar desigualdades no campo.
Bloqueios ganham força e adesões
Marchas iniciadas no norte do país, nos departamentos de Pando e Beni, percorreram mais de 400 quilômetros até alcançarem as imediações da capital. Professores, mineiros e demais categorias se uniram à mobilização, que hoje mantém estradas fechadas e compromete o abastecimento de La Paz. Segundo a Central Operária Boliviana (COB), houve detenções de líderes e uso de força policial para dispersar manifestantes, fatos que elevaram o tom dos protestos e incluíram a exigência de renúncia de Rodrigo Paz.
Especialistas lembram que, em um país com logística limitada, a interrupção das rotas que convergem para La Paz rapidamente pressiona o Executivo a negociar.
Revogação não acalma manifestantes
Em 12 de maio, Paz revogou a Lei 1.720 e sinalizou um prazo de 60 dias para que o Parlamento elabore nova proposta “baseada no consenso”. A Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), porém, considerou a decisão insuficiente. Em vídeo, o dirigente Humberto Claros classificou o recuo como “trégua” antes de um possível novo projeto que, segundo ele, beneficiaria elites agrárias.
Acusações de terrorismo e interferência externa
Sem apresentar provas, o governo passou a atribuir o financiamento dos bloqueios ao narcotráfico e ao ex-presidente Evo Morales. Paz acusou os manifestantes de atacar a democracia, prometendo punições severas. Morales, por sua vez, negou envolvimento e declarou que o povo protesta contra “pacotes de austeridade”. A escalada retórica aumenta o risco de confronto, alertam analistas consultados pela BBC.
Crise econômica agrava insatisfação
Desde dezembro de 2025, a Bolívia enfrenta sucessivos choques. O decreto que retirou subsídios aos combustíveis foi parcialmente revertido, mas a inflação de alimentos e transportes persiste. Em paralelo, o governo criou comissão que discute mudanças constitucionais e planeja reformas na mineração, petróleo, gás e judiciário, medidas vistas por opositores como abertura excessiva ao capital estrangeiro.
Para Alina Ribeiro, “os preços do dia a dia, do óleo de cozinha ao ônibus, são a queixa mais recorrente da população”, o que potencializa a adesão aos protestos.
Com bloqueios prolongados, pressão sindical e questionamentos sobre a legitimidade de suas reformas, Rodrigo Paz enfrenta o maior teste de seu mandato. Resta saber se o diálogo proposto pelo governo bastará para dissolver a mobilização ou se a aposta na repressão aprofundará a crise.
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Crédito da imagem: Reuters
Fonte: Reuters
