PCC e Comando Vermelho terroristas? A designação feita pelos Estados Unidos às facções brasileiras suscita críticas do promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, que afirma não haver benefício prático para o Brasil e alerta para possíveis obstáculos à cooperação no combate ao crime.
Classificação norte-americana gera dúvidas sobre eficácia
Em entrevista recente ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, Gakiya avaliou que enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas não reduz o poder das facções — realidade já observada com grupos mexicanos, venezuelanos e salvadorenhos igualmente rotulados pelos EUA. Para o promotor, o movimento tem forte conotação política, mas carece de resultado concreto.
A mudança de status, anunciada na última quinta-feira (28 de maio), transfere a responsabilidade de investigação dentro dos EUA do FBI e da Drug Enforcement Administration (DEA) para a CIA e até para as Forças Armadas, o que, segundo Gakiya, pode comprometer acordos já firmados com autoridades brasileiras para troca de informações sensíveis.
Risco à soberania e possibilidade de ações militares
Embora considere remota uma intervenção norte-americana em território nacional, o promotor lembra que a legislação dos EUA autoriza operações encobertas sem autorização do país alvo, como já ocorreu no México e na Venezuela. Esse cenário, destaca, abre brechas para pressões econômicas, sanções e eventual presença militar, fatores que colocariam em xeque a soberania brasileira.
O enquadramento também diverge do critério adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que exige motivação política ou ideológica para definir terrorismo — condições que não se aplicam às facções, centradas no lucro do tráfico de drogas.
Cooperação poderia ser alternativa mais eficaz
Investigador do PCC há mais de duas décadas, Gakiya defende reforçar as parcerias já existentes. Para ele, formar forças-tarefas binacionais, compartilhar tecnologia, promover treinamentos conjuntos e financiar operações de inteligência seriam medidas mais produtivas do que ampliar o escopo militar.
No entendimento do promotor, o Estado brasileiro possui instituições sólidas capazes de enfrentar o crime organizado, desde que receba apoio técnico e financeiro adequado. “Precisamos aprimorar os instrumentos de investigação, não importar rótulos que pouco contribuem para a repressão aos crimes”, finalizou.
Quer acompanhar outras análises sobre segurança pública? Visite nossa editoria de Justiça e continue informado.
Crédito da imagem: Andressa Anholete/AFP
Fonte: Agência Brasil
