Só 29 brasileiros se chamam Pancrácio, segundo o IBGE (Censo 2022). Uma igreja em Interlagos cultua o jovem mártir há mais de sete décadas, diz o pároco Júlio Shinji.
Só 29 brasileiros se chamam Pancrácio. O nome ocupa a 96.655ª posição entre os mais comuns do país, segundo o levantamento Nomes no Brasil, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir do Censo de 2022.
Em Interlagos, na zona sul de São Paulo, no entanto, Pancrácio dá nome a uma igreja há mais de sete décadas. Trata-se da única paróquia brasileira dedicada ao jovem mártir romano, conforme confirmação do padre Júlio Shinji, atual pároco.
“A única paróquia é essa daqui”
A história do culto a São Pancrácio segue a tradição católica registrada na coleção Vidas dos Santos, do padre Réné François Rohrbacher. Segundo esse relato, Pancrácio ficou órfão ainda jovem e foi criado pelo tio Dionísio. Ambos foram para Roma e receberam o batismo. Durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador Diocleciano, o adolescente recusou-se a sacrificar aos deuses romanos e foi decapitado aos 14 anos. A tradição situa sua morte em 12 de maio de 304.
Séculos depois, uma basílica em Roma ligou-se à sua memória. Em 1946, quando o então arcebispo de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, foi criado cardeal, San Pancrazio foi designada como sua igreja titular em Roma. Devoto do mártir, Motta desejou que São Paulo também tivesse uma igreja em honra a Pancrácio. Em abril de 1949, a paróquia foi criada em Interlagos.
Nos anos seguintes foi erguida uma capela de madeira onde as missas chegaram a acontecer apenas uma vez por mês. A partir de 1977, moradores iniciaram uma arrecadação para construir uma nova capela; registro paroquial menciona a participação de norte-americanos, portugueses, espanhóis e italianos unidos a brasileiros na campanha. A construção foi concluída em 20 de setembro de 1981.
São Pancrácio é celebrado em 12 de maio. Em Interlagos, a proximidade dessa data com a festa de Nossa Senhora de Fátima, padroeira da Diocese de Santo Amaro no dia 13, levou a comunidade a substituir a novena por um tríduo. Padres convidados participam das celebrações, e o bispo costuma presidir uma missa no domingo mais próximo da festa.
O padre Júlio associa a devoção local principalmente à juventude e ao trabalho, áreas em que Pancrácio figura como padroeiro. A secretária da paróquia relatou que, em maio, uma mulher de Minas Gerais esteve na igreja enquanto procurava emprego e pediu a intercessão do santo. Depois de conseguir trabalho, ela voltou a falar com a paróquia e solicitou que uma missa fosse celebrada em ação de graças.
O padre Júlio esteve em Roma e desceu às catacumbas de São Pancrácio. Ele percorreu corredores estreitos escavados na rocha, com nichos funerários abertos nas paredes, até o túmulo do mártir, e conheceu o local onde Pancrácio foi decapitado, hoje marcado por uma inscrição com seu nome.
Em Interlagos, permanece um fragmento de osso do mártir, trazido pelo cardeal Motta e guardado em um relicário dentro da igreja. Mais de 1,6 mil anos depois, um fragmento do jovem morto em Roma no século 4 repousa no centro da única igreja brasileira que recebe seu nome.

