Pesquisas com orcas mostram que fêmeas pós-férteis lideram caçadas e lembram onde há comida. No Brasil, mulheres aos 50 desempenham papel social e de saber que vai além da reprodução.
Na costa oeste da América do Norte, quando um grupo de orcas sai atrás de salmão, quem costuma ir à frente é uma fêmea mais velha, que já não se reproduz. Nos anos de escassez, essa liderança fica ainda mais evidente. Pesquisadores acreditam que ela guarda o que o grupo mais precisa: a memória de onde há comida.
Pela lógica clássica da evolução, a vida depois da fase fértil nem deveria existir: a seleção natural favorece quem se reproduz. Poucas espécies fogem dessa regra: orcas, algumas outras baleias dentadas e a nossa espécie. Segundo o IBGE, a brasileira que chega aos 50 anos, perto da idade da menopausa, ainda tem, em média, mais de 30 anos de vida pela frente. Essa longevidade é anterior à medicina moderna. Entre povos que vivem da caça e da coleta, com pouco ou nenhum acesso a ela, a idade em que mais adultos morrem fica perto dos 70 anos.
Por que a evolução preservaria essa fase? Em 1998, a antropóloga Kristen Hawkes defendeu a “hipótese da avó”: avós que ajudam a alimentar os netos permitem que as filhas tenham mais filhos. As baleias dentadas reforçam a ideia. Diversas espécies, como orcas, baleias-piloto, belugas e narvais, entram na menopausa. Quando a natureza chega mais de uma vez à mesma solução (menopausa) para diferentes espécies, é provável que ela tenha utilidade. Em 2024, um estudo publicado na revista Nature mostrou que as fêmeas dessas espécies passaram a viver mais, sem prolongar a fase fértil, e ganharam anos de convivência com filhos e netos.
Os gregos antigos parecem ter intuído algo parecido. Em Delfos, o oráculo mais célebre da Grécia falava pela boca da pítia, a sacerdotisa de Apolo. Segundo o historiador grego Diodoro da Sicília, a partir de certa época a pítia passou a ser uma mulher idosa. Em diálogo registrado no Teeteto, de Platão, Sócrates lembra que as parteiras eram mulheres que já não podiam ter filhos. Filho de uma parteira, Sócrates comparou seu método ao parto: ajudava os outros a dar à luz as próprias ideias — daí o nome maiêutica (literalmente, “parto”). A biologia e a história apontam na mesma direção: a vida depois da menopausa tem função própria.
Uma grande análise feita por pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, organizou 90 tipos de exames laboratoriais — do colesterol à hemoglobina — em mais de 1 milhão de mulheres norte-americanas e israelenses. Somados, os resultados passam de 300 milhões. O estudo foi publicado em 12 de outubro de 2026 na revista Nature Medicine.
Organizados por idade, os exames pareciam mudar aos poucos. Ocorre que cada mulher para de menstruar numa idade diferente. Para separar as duas coisas, os pesquisadores usaram uma técnica da astronomia, a mesma que tira o borrão das imagens de telescópio. Sabendo como a idade da menopausa varia, calcularam como cada exame se comporta, em média, em relação à última menstruação. O que parecia uma rampa virou um salto: em 52 dos 90 tipos de exame, os valores mudam de patamar em torno da última menstruação. Há saltos em marcadores dos ossos, fígado, gorduras do sangue, rins etc. Nos homens, os mesmos exames mudam devagar, sem saltos.
Em parte, a explicação está no estrogênio, que tem receptores em quase todos os tecidos. Quanto mais sensível a ele é um sistema, maior tende a ser o salto. Os ossos, que dependem do estrogênio, estão entre os mais afetados. Logo depois vem o fígado, centro do metabolismo das gorduras.
Os autores do estudo chamaram o fenômeno de “precipício fisiológico”. A palavra, no entanto, foi contestada pela análise dos próprios dados: o artigo descreve mais a passagem de um patamar para outro do que um abismo sem retorno. De um patamar, pisa-se em chão firme e segue-se caminhando; de um precipício, não se volta. Algumas mudanças passam: a dificuldade para dormir e os sintomas depressivos sobem logo depois da última menstruação e, nos anos seguintes, voltam ao ritmo do envelhecimento comum. Uma mudança é para melhor: sem a perda mensal de sangue, ferro e hemoglobina sobem, e a anemia fica menos comum.
A reposição hormonal é o tratamento mais eficaz
Escreve Alexandre Feldman.
A biologia evolutiva ajuda a interpretar o restante. Se as avós ajudavam a criar os netos, a seleção natural pode ter favorecido indivíduos que continuassem fortes e saudáveis depois da fase fértil. Parte das mudanças que os autores chamam de “precipício” pode ser simplesmente um reajuste: uma hipótese antiga sobre os ossos diz que o estrogênio faz o esqueleto feminino guardar tecido ósseo além do que os músculos exigem. Sem estrogênio, esse excedente é desfeito, e a perda óssea tende a parar quando o osso fica na medida certa da carga que ele recebe.
Esse reajuste evoluiu em um ambiente de caminhadas, carga e sol. Hoje, acontece na cadeira, sob lâmpadas. O caso dos astronautas ilustra a plasticidade óssea: em órbita, os ossos se adaptam à falta de gravidade e perdem, em cerca de quatro meses, o que o quadril de uma mulher perde nos três anos de perda óssea mais rápida da menopausa. De volta à Terra, a recuperação é lenta. Um osso adaptado à gravidade zero fica frágil quando exposto à gravidade; um osso adaptado à cadeira fica frágil para uma queda. Doenças como infarto e derrame chegam aos poucos a homens e mulheres, como resultado, ano após ano, do que mudou nos exames e do que se fez depois. É nesse intervalo que estilo de vida e medicina podem agir.

