Em três semanas, Lula venceu Flávio por 4,4 milhões ao somar 10,4 milhões de votos extras. A virada superou projeções favoráveis ao rival e ampliou sua fatia nos votos válidos nas 27 unidades.
Em três semanas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reverteu uma desvantagem de 2,2 milhões de votos e venceu Flávio Bolsonaro (PL) por 4,4 milhões no segundo turno. O presidente recebeu 10,4 milhões de votos adicionais entre as duas votações e ampliou sua participação nos votos válidos nas 27 unidades da Federação, resultado que surpreendeu depois das projeções favoráveis ao rival.
A virada ocorreu apesar de condições desfavoráveis: Flávio havia vencido o primeiro turno, parte expressiva das candidaturas eliminadas tinha posicionamento mais próximo da direita, e a abstenção costuma aumentar no segundo turno. Projetos e pesquisas divulgados durante a campanha apontavam dificuldades para a reeleição.
Em 8 de outubro, um modelo do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo atribuiu 19% de probabilidade de vitória a Lula. A estimativa se baseou numa pesquisa que mostrava Flávio com 52% dos votos válidos contra 48% do presidente, projetando 52,2% para o senador e 47,8% para o petista. A análise ressaltou o favoritismo de Flávio, a elevada rejeição aos candidatos e o baixo percentual de eleitores dispostos a mudar de voto.
A própria escola também destacou uma dificuldade histórica: desde 1989, nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar havia revertido o resultado no turno decisivo.
Na véspera da eleição, as pesquisas seguiam mostrando disputa apertada, mas em maioria com vantagem numérica de Flávio. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 24 de outubro, registrou 50,5% dos votos válidos para Flávio e 49,5% para Lula; aplicando um modelo de eleitor provável, a margem passou a 52,4% a 47,6% para o senador. A estimativa de abstenção era de 21%, próxima da taxa do primeiro turno. A votação efetiva contrariou essa previsão: a abstenção caiu para cerca de 19,2% e Lula venceu com 51,79% dos votos válidos.
O estudo do BTG Pactual, assinado pelos economistas Tiago Berriel e Mateus Della, examinou 27 cenários combinando transferência de votos de candidaturas eliminadas e movimentos de entrada e saída de eleitores entre os turnos. Em nenhuma das combinações Lula ultrapassava Flávio. No cenário central, o modelo considerou a entrada de 5,5 milhões de eleitores que faltaram ao primeiro turno e a saída de 5 milhões que haviam votado: aumento líquido de 500 mil eleitores, com vitória de Flávio por cerca de 3,17 milhões. Mesmo no cenário mais favorável a Lula, o senador terminaria à frente por cerca de 270 mil votos.
Os economistas calcularam ainda que uma virada sustentada somente pela mobilização de eleitores ausentes exigiria cerca de 12,6 milhões de comparecimentos adicionais, com Lula recebendo 70% desses votos e Flávio 30% — situação que dependeria de a abstenção cair para aproximadamente 13,1%.
No primeiro turno, Flávio teve 56,1 milhões de votos e Lula 53,9 milhões; os demais candidatos somaram aproximadamente 9,3 milhões. Parte expressiva desse eleitorado estava mais próxima da direita, e figuras como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) declararam apoio a Flávio no segundo turno. Segundo a cardiologista Ludhmila Hajjar, a internação teve como objetivo permitir que Caiado recebesse medicação intravenosa.
A contabilidade final mostra o movimento necessário para a virada: Lula passou de 53,8 milhões para 64,2 milhões (crescimento de 10,3 milhões em um dos cálculos apresentados no material), enquanto Flávio foi de 56,1 milhões para 59,8 milhões (acréscimo de 3,7 milhões). A diferença entre os ganhos foi de 6,6 milhões — resultado da soma dos votos recolhidos das candidaturas eliminadas, do aumento líquido de comparecimento e da redução de votos brancos e nulos.
Os números ajudam a entender como uma vantagem inicial de 2,2 milhões foi transformada em vitória por 4,4 milhões: combinação de transferência de votos, mudanças no comparecimento ao longo dos turnos e alteração do comportamento de voto entre eleitores que haviam escolhido outros candidatos no primeiro turno.



