O economista Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia, criticou a decisão do governo de Donald Trump de impor tarifas ao Brasil, utilizando a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Em sua análise, publicada nesta segunda-feira, 20, Krugman questionou a lógica por trás da medida, afirmando:
“Por que seria desleal um país oferecer aos próprios cidadãos uma forma melhor de fazer pagamentos?”
Ele argumenta que a ação do governo americano visa punir o sucesso do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, conhecido como Pix, e reflete a resistência da administração Trump a inovações tecnológicas que desafiem os interesses de empresas do setor de pagamentos e de criptomoedas.
O economista destacou que o Pix, lançado há quase seis anos, se tornou amplamente adotado por oferecer transações gratuitas para pessoas físicas e a baixo custo para empresas. Krugman questionou a classificação do Pix como uma prática comercial desleal, afirmando:
“Desde quando é uma prática desleal uma empresa perder mercado para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?”
Ele comparou a obrigatoriedade de os bancos brasileiros oferecerem o Pix à exigência de instituições financeiras americanas aceitarem depósitos e saques em dólares, refutando a ideia de que isso proporcionaria uma vantagem indevida sobre métodos de pagamento privados, como os cartões de débito.
Krugman acredita que a verdadeira preocupação por trás das críticas ao Pix está relacionada ao impacto que ele pode ter sobre empresas americanas como Visa e Mastercard, além do temor de que sistemas de pagamentos públicos possam, no futuro, desafiar a predominância do dólar. No entanto, ele ressalta que o Brasil é pequeno demais para provocar mudanças significativas nesse equilíbrio, apontando que a criação de um euro digital pelo Banco Central Europeu (BCE) seria um desafio mais relevante.
O Nobel também criticou a resistência dos republicanos à criação de uma moeda digital emitida pelo Federal Reserve (Fed). Segundo Krugman, essa oposição é motivada menos por preocupações técnicas e mais pelo receio de que um dólar digital diminua a demanda por stablecoins e outros criptoativos. Ele comentou:
“A verdadeira preocupação é que funcionaria bem demais.”
Na visão de Krugman, a reação ao Pix assemelha-se à postura do governo Trump em relação às energias renováveis, onde interesses de setores de criptomoedas e combustíveis fósseis rejeitam inovações que ameaçam seus modelos de negócio. Para ele, as tarifas impostas por Trump provavelmente não alcançarão os resultados desejados. Politicamente, ele acredita que essa medida tende a fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto economicamente, Washington terá limitações para aumentar tarifas sobre produtos como café, suco de laranja e carne bovina, devido ao risco de elevar preços nos EUA. Além disso, ele menciona a economista Monica de Bolle, que alega que o redirecionamento do comércio global causado pelas tarifas americanas acabou por fortalecer a posição exportadora do Brasil.
